Celso  Filipe
Celso Filipe 26 de setembro de 2017 às 23:00

João Lourenço, o mau xadrezista

As relações entre Portugal e Angola atravessam um período complicado e prolongado no tempo. Já se sabia isso antes da tomada de posse de João Lourenço como Presidente de Angola. A deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa a Luanda para participar na cerimónia de investidura parecia ter o condão de contribuir para o degelo do relacionamento bilateral.
Só na aparência. Porque, na prática, João Lourenço manteve a política de distanciamento cultivada pelo seu antecessor e motivada pelos processos judiciais em curso em Portugal, os quais envolvem alturas figuras do Estado angolano, entre as quais o seu ex-vice-presidente, Manuel Vicente.

O azedume em relação a Portugal ficou patente quando o novo inquilino do Palácio da Cidade Alta elencou uma extensa lista de países com os quais Angola quer manter relações "importantes" e omitiu de forma deliberada Portugal. E nem se pode argumentar com uma referência anterior aos PALOP feita no seu discurso, porque nessa lista identificou um outro país de língua portuguesa, o Brasil.

João Lourenço agiu mal. Por duas ordens de razão. Uma diplomática e outra política.

Na diplomática, por evidente deselegância, roçando até a má educação. Portugal fez-se representar na cerimónia através da principal figura do Estado, sinal do relevo que dá às relações bilaterais. Os países "importantes", segundo Lourenço (por exemplo, os EUA, a China, o Reino Unido, Espanha, a Rússia), enviaram segundas, terceiras e quartas linhas a Luanda.

Na vertente política, porque João Lourenço, mesmo riscando Portugal do mapa dos "importantes", não pode decretar o fim de uma realidade que são as relações económicas entre os dois países. O que o novo Presidente de Angola fez, de forma camuflada, foi uma chantagem. A ameaça velada de corte das relações diplomáticas, recado enviado anteriormente ao Ministério do Negócios Estrangeiros português, é outra das peças desta manobra de pressão. João Lourenço, para aquietar as elites do seu partido, em vez de entreabir a porta do diálogo com Portugal, fechou-a com estrondo. É mau para Portugal? Claro que sim. Mas é igualmente mau para Angola, porque perde um parceiro privilegiado e com características únicas.

Como praticante de xadrez que diz ser, João Lourenço cometeu um erro de principiante: tanto quis ganhar que acabou por afogar o rei, o que, como se sabe, significa um empate. A questão de fundo residirá em saber se as duas partes estão dispostas a começar um novo jogo. 


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