Celso  Filipe
Celso Filipe 16 de janeiro de 2018 às 23:00

Levar a carta a Garcia

Os CTT têm andado em bolandas e tudo aponta para que assim continuem. Ontem, foi a vez de o BPI colocar pressão adicional ao baixar a avaliação da empresa em 10% devido às novas metas de serviço público traçadas pelo regulador do sector, embora continue a recomendar a compra de acções, considerando que as mesmas têm um potencial de subida.
A leitura dos CTT varia segundo o ponto de vista, ou seja, o mesmo retrato permite interpretações múltiplas, dependendo do interesse particular de quem o olha.

Assim, quando a empresa liderada por Francisco Lacerda apresentou o seu plano de reestruturação, a 19 de Dezembro de 2017, as reacções foram diversas. Os analistas exigiram mais profundidade nos cortes, os investidores aplaudiram, os trabalhadores mostraram cepticismo e partidos como o Bloco de Esquerda e o PCP começaram a exigir a reversão da privatização.

Perante estas contradições a gestão dos CTT tem pela frente uma missão impossível, a de satisfazer todas as corporações. É claro que, sendo uma empresa cotada, a sua prioridade têm de ser os investidores, mas esse objectivo é mais complicado de atingir com o descontentamento dos trabalhadores e a pressão política. A que soma um plano de encerramento de lojas que mexe com os interesses de diversas câmaras municipais, sempre aversas à perda de serviços, porque tal se traduz num descontentamento do eleitorado.

Para tornar a situação ainda mais intricada, a Anacom apertou os critérios de qualidade de serviço que os CTT têm de cumprir, os quais passam a vigorar a partir de 1 de Julho e até 2020. Até agora o regulador impunha 11 critérios aos CTT. As novas metas estabelecem 24 parâmetros, alguns mais exigentes. Por exemplo, foi estabelecida uma meta de fiabilidade que deverá ser cumprida em 99,9% dos casos, através da qual se pretende evitar que o tráfego remanescente seja entregue muito além do padrão definido.

Acresce que o sector postal se encontra numa revolução profunda em termos de modelo de negócio e o Banco CTT ainda está bem longe de contribuir para a construção do futuro da empresa.

A gestão dos CTT enfrenta um caminho longo e repleto de escolhos para levar a carta a Garcia. Os cortes são apenas uma decorrência. O que a empresa terá porventura de fazer é rever a sua política de dividendos, convencendo os accionistas de que precisa de investir agora para ganhar dinheiro mais à frente, ou então esperar que um qualquer tubarão do sector se atire à sua aquisição, sendo que esta hipótese também exige que os CTT sejam atractivos. Para os CTT, o tempo de definições terá de ser como o correio azul – rápido. 

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