Tiago Freire
Tiago Freire 06 de dezembro de 2016 às 00:01

Lições da rua italiana

Ao transformar o referendo numa consulta mais abrangente, o líder italiano deu à oposição mais radical o vigoroso pé que esta desejava meter na porta. Renzi e o ‘establishment’ derrotado é o primeiro passo. E agora? Agora vamos ver.
O referendo italiano correu como o esperado, ou seja, mal. Mais uma vez, o erro está no responsável de quem o convocou. Se David Cameron o fez num ‘bluff’ que lhe rebentou nas mãos, já Renzi falhou ao transformar uma questão técnica de organização política - muito pertinente - numa consulta eleitoral intercalar.

Basta ouvir as reacções de italianos ouvidos nas ruas pelas televisões: ninguém fala do modelo político referendado, mas sim de Renzi, por um lado, ou da mudança de paradigma, por outro. Esta deliberada misturada das coisas deixou Renzi com um único caminho, após a votação. A saída é natural.

Ao transformar o referendo numa consulta mais abrangente, o líder italiano deu à oposição mais radical o vigoroso pé que esta desejava meter na porta. Renzi e o ‘establishment’ derrotado é o primeiro passo. E agora? Agora vamos ver.

Os mercados acordaram nervosos mas rapidamente acalmaram, na prática escolhendo não entender a mensagem do eleitor. O BCE, com o italiano Mario Draghi ao leme, vai segurar a coisa, os italianos são habitualmente voláteis, etc. Tudo vai seguir como dantes, diz a narrativa. Só que não vai, como não tem seguido.

Os fenómenos anti-sistema têm várias coisas em comum, parecendo que as pessoas só estão à espera que lhes perguntem o que quer que seja para poderem dizer que não gostam de como as coisas estão. A alternativa é um segundo passo que não consegue abafar a ânsia do protesto imediato, e que fica para depois, com outros culpados.

Luís Montenegro disse, no início de 2014, que "a vida quotidiana das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas de que a vida do país está muito melhor". Foi uma frase que deu estrondo mas que é cristalina, e que assenta que nem uma luva na postura da elite política ocidental na última década. Estes países sofreram nos últimos anos uma transformação profunda, com os seus cidadãos a viverem uma degradação da sua vida financeira e social, e até de dúvida sobre a sua identidade enquanto parte da sociedade. Não há dinheiro, e a solidariedade foi esmagada pela competitividade na hierarquia dos valores dos Estados.

Para quem gosta de ver o mundo a preto e branco, as alternativas são a aceleração da globalização (que só causará mais dores até um patamar de algum equilíbrio) ou o proteccionismo do orgulhosamente sós. Nada disto resolve, nem nos poupará a mais tumultos. O que é preciso é um equilíbrio que não perca nunca de vista que os Estados são feitos de pessoas.

Os populistas afirmam que as coisas estão mal e querem regressar a um passado mítico melhor. Na verdade, esse passado não era melhor, apenas mais simples. Mas o problema não está na parte errada do discurso dos populistas, está na parte que está certa: que as coisas estão mal.

As elites precisam de perder a ilusão de que são uma casta iluminada cujas decisões não têm consequências reais sobre pessoas reais. Governar tendo em atenção a condição de vida das pessoas não pode continuar a ser sempre confundido com demagogia. Insistir num infindável caminho das pedras assente em sacrifícios alheios, isso sim, é estender a passadeira aos demagogos desta vida, sejam Trump, Tsipras ou Grillo.
A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo 06.12.2016


IGUALDADE PARA TODOS

Os cortes nas PENSÕES ATUAIS devem, obrigatoriamente, ser IGUAIS aos cortes nas PENSÕES FUTURAS!

comentários mais recentes
surpreso 06.12.2016

Renzi cometeu o que ficará pelo maior erro da politica moderna-desviar a votação para outro alvo,quando a pergunta era singela "sim,ou não".Outro que o tinha feito,foi o Cameron,mas como aquilo já é uma ilha ,com moeda própria e excepções,foi menos grave

Anónimo 06.12.2016


IGUALDADE PARA TODOS

Os cortes nas PENSÕES ATUAIS devem, obrigatoriamente, ser IGUAIS aos cortes nas PENSÕES FUTURAS!