Tiago Freire
Tiago Freire 31 de julho de 2017 às 23:00

Lições da Venezuela

A farsa política prossegue em Caracas. Nicolas Maduro, o sucessor de Chavez que foi em tempos visitado pelo seu mentor encarnado num passarinho, já foi longe demais.
O escândalo está à vista de todos, e só lhe resta a última via dos tiranos: a eterna fuga para a frente.

Visto deste lado do Atlântico, há duas preocupações. A primeira é com a vasta comunidade portuguesa e luso-descendente na Venezuela, que está naturalmente a passar mal. A segunda é com a forma como Portugal, institucionalmente, se está a portar nesta matéria.

Estas duas vertentes estão ligadas, porque é a preocupação sobre as "garantias de segurança e de bem-estar da comunidade portuguesa e luso-descendente" que tem servido de justificação para a tibieza da posição do Governo português. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, vangloriava-se de gostar de "malhar na direita", mas todos nos lembramos do genuíno prazer que lhe dava malhar na "extrema-esquerda", que ele sempre contrapunha à "esquerda democrática", no seu entender corporizada no seu PS.

Lentamente, passo a passo, o Governo vai assumindo a condenação do regime cada vez mais ditatorial de Maduro, arriscando a ira do seu grande defensor em Portugal, o parceiro parlamentar PCP.

Este, através de um oportuno comunicado divulgado ontem, condena o "ataque ao povo venezuelano, à soberania nacional, à democracia" e fala de "uma clara violação do direito internacional". As palavras são duras e certeiras. O problema é que são aplicadas aos protestos populares de quem luta contra um golpe anti-democrático, ao mesmo tempo que se salienta que "a elevada participação nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (mais de oito milhões de votantes, 41% dos cidadãos eleitores), num País em que o voto não é obrigatório, constitui uma importantíssima mensagem colectiva de defesa da Paz, da democracia e da soberania da República Bolivariana da Venezuela". Eloquente.

De salientar ainda afirmação de que "é ao povo Venezuelano que cabe decidir do seu próprio futuro e da forma de organização do Estado venezuelano". Democracia? Sim, se...

Fica a lição, para quem ainda precisava dela. Com a experiência da geringonça, há quem insista em ver uma modernização e uma abertura do PCP. Há quem considere mesmo que não há grande diferença entre ter um Governo apoiado pelo PCP ou um Governo que o PCP integra.

Não é preciso argumentar nada. Basta ler as palavras do próprio partido.
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mais votado Anónimo Há 3 semanas

O preocupante disto tudo é que cerca de 20% dos votantes deste país são "democratas" do mesmo calibre do assassino maduro. Junte-se a estes 20% cerca de 1/4 dos votantes no PS e chega-se facilmente à conclusão de que já estivemos bem mais longe de uma ditadura pura e dura.

comentários mais recentes
Juca Há 3 semanas

Temos o triângulo das "balbúrdias" com os vértices em Cuba, Coreia do Norte e Venezuela. Toma que é democrático, comunista-socialista.

surpreso Há 3 semanas

Nunca deixem de votar,mesmo que seja logro.Os passarinhos viram abutres,se lhes dão milho

Anónimo Há 3 semanas

O preocupante disto tudo é que cerca de 20% dos votantes deste país são "democratas" do mesmo calibre do assassino maduro. Junte-se a estes 20% cerca de 1/4 dos votantes no PS e chega-se facilmente à conclusão de que já estivemos bem mais longe de uma ditadura pura e dura.

Anónimo Há 3 semanas

Efectivament estas medidas de um governo que tinha tudo para conseguir liderar aquele problemático país são medidas extraordinárias. Estranhamos no entanto, que não se fale das razões estruturais para esta situação como a pressão da austeridade aplicada na Europa do sul agora na A. do Sul...