Celso  Filipe
Celso Filipe 26 de dezembro de 2017 às 23:00

Marcelo, o bom inquietador

Marcelo Rebelo de Sousa tem superado todas as expectativas enquanto Presidente da República. A melhor prova disso é a forma como inquieta os poderes instalados na sociedade portuguesa, ainda portadores de uma visão bafienta da sociedade.
Marcelo inquieta uma certa esquerda por ser de direita e alegadamente interferir na governação. Inquieta uma certa direita que o acusa de se colocar ao lado de António Costa e assim apoiar a esquerda. Inquieta o Governo porque o obriga a agir como se viu no rescaldo dos trágicos incêndios deste ano. Inquieta os guardiães das hierarquias, preocupados com a dessacralização das actividades presidenciais e o fim do acesso privilegiado ao inquilino do Palácio de Belém. Estes não lhe perdoam os abraços e os beijos com o povo, as "selfies", a sua capacidade de comungar sentimentos e de os exteriorizar. Inquieta, tanto nos elogios como nas críticas, porque, não estando refém de nenhum destes poderes, actua em função da sua consciência.

Marcelo desmontou as certezas montadas a partir de um cenário mental dicotómico, na medida em que age a partir de uma diferente perspectiva. Além da reconhecida inteligência emocional, o Presidente da República tem também revelado uma sensibilidade social que o torna único e capaz de mobilizar a sociedade, como o demonstra a decisão de passar o Natal em Pedrógão Grande. O facto de estar sempre na primeira linha do mediatismo faz com que as suas palavras e actos sejam consequentes e tenham efeitos práticos.

Marcelo exerce as funções presidenciais com manifesta satisfação e isso reflecte-se na sua actuação. E a sua popularidade confere-lhe uma capacidade acrescida de intervenção. Mostra-se confortável em qualquer situação e tem uma capacidade de antecipação que o torna um adversário temível.

Por isso, quando Marcelo aprova o Orçamento para 2018, mas avisa que "a existência de duas eleições em 2019 não pode, nem deve, significar cedência a eleitoralismos, que, além do mais, acabem por alimentar surtos sociais inorgânicos, depois difíceis de enquadrar e satisfazer", as suas palavras são muito mais do que um mero comentário de circunstância.

Marcelo joga uma vez mais na antecipação e alerta que não vai olhar de forma contemplativa para a acção do Governo (e também da oposição) no próximo ano. Faz bem, porque o exercício do contrapoder tem-se revelado de uma utilidade extrema para o país. 
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