Celso  Filipe
Celso Filipe 19 de abril de 2017 às 00:01

May(be)*

A primeira-ministra inglesa surpreendeu, ao pedir a marcação de eleições antecipadas no Reino Unido para 8 de Junho. Com o seu partido, os Conservadores, confortavelmente instalados nas sondagens, Theresa May considerou este o melhor momento para reforçar o seu poder através do voto. May tem argumentos atendíveis para justificar esta opção.
A começar pelo da sua própria legitimidade. May só é primeira-ministra devido à demissão do anterior titular do cargo, David Cameron, na sequência do referendo sobre a presença do país na União Europeia (UE), realizado a 23 de Junho de 2016. Desta forma, uma vitória nas eleições de Junho funcionará como uma ratificação popular da escolha feita há um ano pelo seu partido. Além disso, segundo a própria, as eleições são a única forma de garantir uma estabilidade política duradoura, na medida em que remove os riscos de incerteza e instabilidade, enquanto o Reino Unido negoceia a sua saída da UE.

Estes argumentos têm uma base racional, mas nem por isso deixam de ter condimentos mefistofélicos. May avança para eleições com base em sondagens que dão aos Conservadores uma larga liderança. Em sentido contrário, os Trabalhistas definham e os Liberais Democratas e os Independentistas (UKIP) tornam-se mais irrelevantes. Desta perspectiva, as razões invocadas por May reduzem a política à condição de jogo e são apenas pretextos para atingir o objectivo final – o de negociar o Brexit à sua maneira sem ter de fazer acordos parlamentares.

Este quadro é esmagadoramente favorável, mas contudo apresenta dois grandes pontos de interrogação: a Escócia e a Irlanda do Norte. Com esta mudança de rumo, consubstanciada na antecipação de eleições, May dá argumentos adicionais à Escócia para que esta reivindique um novo referendo sobre a sua independência, até porque a região votou maioritariamente a favor da permanência do Reino Unido na UE em Junho de 2016. Daí que a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, já tenha vindo a terreiro acusar May de colocar os interesses dos Conservadores à frente do país. A Irlanda do Norte, em 2016, escolheu o mesmo caminho da Escócia e no plano teórico podem partilhar o fundamento de que não querem seguir o caminho do Brexit duro escolhido por May.

Ou seja, as eleições de Junho poderão projectar uma Theresa May mais forte para consumo externo, mas deixarão duas feridas internas, a Escócia e a Irlanda do Norte, que parecem impossíveis de sarar. 

*Maybe: possibilidade, incerteza.

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comentários mais recentes
Ortigao.sao.payo Há 1 semana

Será que a opirtunista vai recebrr um tito pela colatra ou é isso que deseja

Anónimo Há 1 semana

A questão é simples a classe média sai beneficiada ou prejudicada com o BREXIT... essa é a questão que ninguém quer responder. O que vinga neste momento é uma pressão das elites para a saída... sobretudo porque as elites têm acesso a uma vasta rede de influências ficando livres da regulação...