André  Veríssimo
André Veríssimo 28 de dezembro de 2016 às 00:01

Mestre Putin

Em tempo de balanços do ano, Donald Trump emerge como a figura unânime de 2016. Mas outra merece lugar de destaque e olhar atento: Vladimir Putin. O presidente russo estendeu a sua teia de influência na Europa, afirmou-se no Médio Oriente, mexeu cordéis nas eleições americanas e foi instrumental no acordo da OPEP para fazer subir o preço do petróleo.
A Rússia parecia votada a um papel secundarizado na ordem mundial. A queda a pique do preço do petróleo privou o Kremlin de um encaixe fundamental e o país de divisas. A Federação entrou numa profunda recessão. Mas Putin está habituado a fazer das fraquezas as suas forças. O conflito com a Ucrânia ajudou a unir a maioria dos russos em torno do Presidente, que goza de ampla popularidade - nada como um confronto armado para acicatar nacionalismos. Vieram sanções da União Europeia, mas a anexação da Crimeia tornou-se um dado adquirido. Como antes acontecera com partes da Geórgia.

Os sinistros e ardilosos planos de Putin são muito mais vastos. O antigo agente do KGB investiu na ciberespionagem e a aposta teve os seus frutos nas eleições americanas, com a invasão de servidores do Partido Democrata a permitirem a divulgação de "emails" que penalizaram a campanha de Clinton. No fim ganhou o candidato que Moscovo queria.

Putin conseguiu afirmar-se no Médio Oriente, viabilizando a vitória de Bashar al-Assad sobre os rebeldes na tragédia de Aleppo. O sucesso da Rússia é a derrota de um Ocidente sem liderança.

Mais perto, o Presidente russo tem-se entretido a cultivar os movimentos extremistas e populistas na Europa. O que passa por ceder-lhes financiamento. Só Marine le Pen, da Frente Nacional, veio assumir ter recebido um empréstimo de um pequeno banco com ligações ao Kremlin. Mas já este mês o Partido da Liberdade austríaco assinou um acordo de cooperação com o partido de Putin. Também o Alternativa para a Alemanha tem vindo a fortalecer os laços com o Rússia Unida. E vale a pena lembrar a aproximação entre Atenas e Moscovo no período mais crítico das negociações para o terceiro resgate.

Putin faz tudo isto sem oposição de relevo. Podemos ver nesta fértil actividade apenas uma forma de esconder a sua fragilidade. Mas com Obama de partida e Trump a mostrar alguma simpatia para com Moscovo, o Presidente russo é cada vez mais o mestre das marionetas. E manipula-as sentado num arsenal nuclear que faz questão de invocar com crescente frequência. A Guerra Fria está de volta. Putin tem um plano e está a executá-lo. E o Ocidente? 

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comentários mais recentes
Rui Alegria 28.12.2016

Ao ler artigo de André Veríssimo sobre Putin esperava encontrar informações sobre ligações ao terrorismo na Europa mas nada encontrei, logo foram feitas acusações graves sem dados de prova. Aquilo que se sabe de fonte segura é que EU e UE com apoio à chamada primavera árabe criaram o problema.