Celso  Filipe
Celso Filipe 14 de novembro de 2017 às 23:00

Não é política, é economia

Donald Trump vai enfrentar um teste sério. Não se trata da guerra de palavras da Coreia do Norte, da intriga sobre a intervenção da Rússia nas presidenciais norte-americanas, das pressões sobre a China ou sequer dos recuos da Casa Branca em relação às alterações climáticas.
Trump vai ser examinado por uma promessa que fez durante a campanha e garantiu que iria concretizar este ano, a de uma descida de impostos, em particular do IRC, de 35% para 20%. Foi muito à conta desta expectativa que a economia se manteve animada e que os mercados financeiros se têm comportado positivamente. A bolsa alimenta-se de expectativas e ganha na antecipação, pelo que a promessa de uma redução fiscal é o terreno ideal para uma boa performance.

A promessa do Presidente norte-americano ficou agora adiada para 2019, não por acção dos democratas, mas sim porque os senadores do seu partido, os republicanos, assim o decidiram. Este facto, além de se constituir como uma derrota política, poderá ter impactos na governação de Donald Trump, por via de uma desaceleração da economia e da queda dos índices bolsistas. E também pela hipótese de a Reserva Federal aumentar as taxas de juro em Dezembro.

Até agora, Trump tem usufruído de uma conjuntura interna favorável e jogado com os seus inimigos externos, por exemplo, a Coreia do Norte e o Irão, para unir os norte-americanos. Com uma situação económica incerta, Trump poderá tornar-se mais imprevisível, circunstância que irá aumentar o grau de incerteza à escala global. Tanto ao nível da segurança como dos próprios mercados financeiros.

Trump tem sobrevivido graças à eficiência do seu discurso, feito de mensagens fortes cujo prazo de validade é o imediato. As pessoas fixam o que ele diz e relevam a veracidade do conteúdo. O Washington Post fez a contabilidade de quase um ano de Trump e concluiu que o Presidente dos EUA tem divulgado em média, por dia, 5,5 mentiras, factos alternativos ou exageros nas declarações públicas que faz.

Nada disso tem feito muito mossa em Trump. O que poderá realmente fazer a diferença é a mudança do clima económico, que trará um substantivo desconforto, tanto para o povo como para as elites. O desafio que o Presidente norte-americano tem, e para o qual os "soundbytes" serão ineficazes enquanto paliativo, é o de contrariar a incerteza de que tomou conta dos mercados. Sem estes como aliados, Donald Trump corre riscos. 

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