Tiago Freire
Tiago Freire 23 de Outubro de 2016 às 22:00

Não basta o amigo canadiano

O "rating" da DBRS ajuda-nos com o BCE, mas não nos traz credibilidade. Toda a gente sabe que os canadianos são normalmente uns tipos porreiros e que a sua agência está a ter, via Portugal, o maior aumento de visibilidade da sua história.

Na sexta-feira, a agência canadiana DBRS desempenhou com convicção o papel que o argumento lhe reservava. Sim, a decisão de manter inalterados o "rating" e a perspectiva da nossa dívida pública era largamente esperada, porque nada nos últimos meses justificaria de forma vagamente convincente uma penalização. Mas não deixa de ser uma boa notícia, sobretudo por uma questão técnica. Portugal precisa de pelo menos uma notação com nível de investimento para beneficiar da protecção do BCE no mercado secundário, e é exactamente a DBRS quem nos garante, para já, esse acesso.

 

Mas esta é, na verdade, uma questão técnica. Essencial, sim, mas técnica.

 

A importância dos "ratings" vem sobretudo da chancela que as agências mais prestigiadas atribuem ao activo analisado. Para Moody's, Standard & Poor's e Fitch - as três grandes - somos "junk", ou seja, estamos abaixo do nível de investimento. Este é o carimbo que estes três colossos decidiram ser o apropriado para nos catalogar perante os investidores internacionais. Muitos destes têm investimentos em todo o mundo e não têm tempo nem recursos para colocar analistas a seguir Portugal; o que fazem, na prática, é ouvir a opinião das agências e agir de acordo com esta.

 

Mário Centeno tem toda a razão quando disse, em entrevista recente ao Negócios, que o Governo teve de enfrentar preconceitos de toda a ordem quando tomou posse. Justificou-o com o facto de o país, com o anterior Governo, ter falhado os objectivos em termos de contas públicas. Ignorou o motivo central: essa desconfiança veio do receio de um Governo que nasceu sem ganhar as eleições e que ficou dependente de partidos mais radicais à esquerda.

 

E este é o campeonato que interessa disputar, a luta que é preciso travar e ganhar. O preconceito está a esbater-se, mas ainda é forte (Catarina Martins está certa quando diz que o contexto da construção europeia da última década é de direita). E, para derrubar o preconceito e para reconquistar a credibilidade, é preciso falar, e muito, com os grandes investidores e, sobretudo, com as agências de "rating" (que falam com os aqueles).

 

O "rating" da DBRS ajuda-nos com o BCE, mas não nos traz credibilidade. Toda a gente sabe que os canadianos são normalmente uns tipos porreiros e que a sua agência está a ter, via Portugal, o maior aumento de visibilidade da sua história. É preciso insistir e trabalhar muito para que, bem antes do final da legislatura, pelo menos uma das três agências de referência nos passe para a primeira divisão. Com certeza, as outras seguiriam esse caminho, mais cedo ou mais tarde. Para já, o amigo canadiano vai dando a sua ajuda, e Deus o guarde. Mas não chega para realmente fazer a diferença no médio prazo.

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mais votado Anónimo Há 1 semana

SR TIAGO, ANDA A LER MUITO O DR CAMILO!

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Anónimo Há 1 semana

Ora aqui está uma opinião "abalizada". A DBRS ia mesmo precisar de "Portugal" para ganhar notariedade. Fundada em 1976, esteve à espera que Portugal se afundasse para ficar famosa. Ora, "give me a break"...

TinyTino Há 1 semana

Engraçado. No tempo da PaF, o BCE era o mesmo, a DBRS era a mesma, o Jornal de Negócios o mesmo era, e os nºs do défice até eram piores. A única coisa que mudou foi de facto o Governo. E a isenção? É bonita não é? Tão mais bonita porque é raríssima, sobretudo na comunicação social portuguesa.

Anónimo Há 1 semana

SR TIAGO, ANDA A LER MUITO O DR CAMILO!

Mzito Há 1 semana

"Os canadianos são ...uns tipos porreiros". É mesmo? Acha então que uma agência de "rating" daquela dimensão está preocupada com a sua visibilidade dando um bom "rating" a Portugal? Não creio que seja esse o problema! Talvez o "nosso amigo" Marinho seja o verdadeiro problema, não acha?

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