Tiago Freire
Tiago Freire 04 de Outubro de 2016 às 00:01

Ninguém acertou na geringonça

Há um ano, os portugueses foram às urnas. Aí, nessa decisiva tribuna do cidadão, jogava-se o conflito entre dois modelos, duas formas de ver a sociedade, a economia, a Europa e o país.

A inflexibilidade do PàF e o sonho de Costa, a esperança da mudança versus a manutenção do rumo, difícil mas mais seguro. Quanto ao Bloco e à CDU, sejamos francos, ninguém lhes prestou muita atenção. Porque as suas campanhas são habitualmente mais do mesmo e porque, até então, nunca haviam contado para o Totobola governativo. Como estávamos todos errados...


Quando Costa começa a apresentar a famosa geringonça, quase toda a gente o considerou um 'bluff'. Um 'bluff' tão bem feito que, na verdade, não era 'bluff': Costa tinha mesmo um poker na mão, juntando PS, PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes.

À distância, ninguém realmente acertou no que viria a ser esta inédita formação.

A direita falhou na previsão, acenando com o caos iminente, o descontrolo das contas públicas, a impossibilidade de entendimento coerente entre as forças da esquerda.

O PS também falhou, não apenas na previsão como nos resultados que entregou. O pó mágico da devolução de rendimentos, que iria inebriar o traumatizado consumidor, não conseguiu reanimar a economia, deixando o Governo à procura de uma explicação e de um caminho alternativo que ainda não encontrou. Aliás, para provar que o PSD estava enganado quanto à sua fúria despesista acabou por provar que o próprio PS também estava enganado, no que toca à reactivação económica.

Cavaco Silva falhou estrondosamente, quando exagerou o carácter "radical" e anti-europeísta dos partidos mais à esquerda, porque desvalorizou o pragmatismo e o tacticismo que, por agora, continuam a reinar. O mesmo se pode dizer da União Europeia, que sempre esteve à espera de deslizes graves e concretos para torcer o nariz à geringonça e que, na ausência destes, se vai entretendo com avisos vagos para o futuro.

Falharam todos aqueles que auguravam vida curta à experiência, cuja estranha forma de funcionar não implica que não vá funcionando.

Só não falhou, para já, quem acenou com o risco de radicalização do PS. Que António Costa vai driblando, aqui e ali, com a retórica sobre os fundamentos do partido, mas que é evidente perante o oportunismo político e mediático do Bloco de Esquerda.

Depois de tanta gente errada (eu incluído), o que ficou desta experiência, numa primeira e necessariamente incompleta análise? Um falhanço económico, um cumprimento financeiro razoável e uma vitória política.

Desbravamos novo caminho, e à nossa espera não temos, afinal, nem o céu nem o inferno.
A sua opinião11
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado surpreso 03.10.2016

Essa ,agora ,"ninguém acertou"?Cá está a geringonça a sugar-nos,como se previa

comentários mais recentes
Oh surpresa Há 4 semanas

Vives em que país? Quem me roubou foram os da tua laia.

Viva a geringonça Há 4 semanas

Fascistas é no cemiterio.

Anónimo Há 4 semanas

Azia !!! Só quem precisa de acertar é a coligação que tem feito um bom trabalho no sentido de melhorar as condições de vida da classe média. Estamos no século XXI e o mais importante são as pessoas...

Anónimo Há 4 semanas


FP . CGA – 40 ANOS A ROUBAR OS TRABALHADORES DO PRIVADO


400 milhões de Euros para aumentar as pensões mínimas, são migalhas em comparação com...

os mais de 4600 milhões de euros que o Estado injetou, em 2015 (e injeta todos anos) através de transferências diretas do Orçamento do Estado (ou seja, com dinheiro pago em impostos pelos restantes portugueses) para assegurar o financiamento do buraco das pensões da CGA.

ver mais comentários
pub
pub
pub