Celso  Filipe
Celso Filipe 06 de janeiro de 2017 às 00:08

Novo Banco, velhos hábitos 

O Banco de Portugal, altaneiro na sua torre, contempla com indiferença a plebe que se move na muralha circundante. O Banco de Portugal tem tempos próprios, as suas prioridades absolutas e um método para comunicar as suas decisões que escapa ao comum dos mortais.

Foi por isso que o Banco de Portugal considerou que só estavam reunidas condições para comunicar a sua decisão sobre o Novo Banco às 23:45 de quarta-feira, no limite do prazo, mas bem a tempo de dizer que o cumpriu. Para o Banco de Portugal, ao que parece, o primado de divulgar informação em tempo útil é uma esquisitice dos jornalistas, até porque para os portugueses é indiferente terem a informação às 23:45 ou às 21:00.

 

Este é um velho hábito disseminado pelos decisores nacionais, sejam eles públicos ou privados. A estratégia é básica. Se as notícias são boas, divulgam-se as mesmas à hora dos telejornais, o pináculo das audiências. Se são más ou complexas, aguarda-se pelo fim do dia, para que sejam engolidas pela calada da noite e para que, no dia seguinte, já pareçam uma notícia do dia anterior. O Banco de Portugal, os governos e as empresas são useiros e vezeiros nestas práticas e depois, com candura, queixam-se da desconfiança da opinião pública, dos eleitores, dos investidores e, claro está, dos jornalistas, que se excitam com as más notícias e reagem com indiferença às boas.

 

Estes velhos hábitos de opacidade lançam o descrédito, mas ninguém parece preocupado. Um exemplo. Lembra-se da auditoria forense à CGD aprovada a 20 de Junho de 2016 no Parlamento? Soube-se ontem que a 19 de Novembro, ou seja, cinco meses depois, o ministro das Finanças solicitou a realização da dita à administração da Caixa e que esta pediu ao Banco de Portugal para que desencadeasse o processo. E qual o ponto da situação? "A auditoria não está em curso. Está o processo de lançamento", explicou quarta-feira no Parlamento o ex-presidente da instituição, António Domingues.

 

Ou seja, enquanto a turba se deliciava com a declaração de rendimentos de Domingues, não se mexeu uma palha para tentar perceber as razões que forçaram a necessidade de um plano de recapitalização da Caixa.

 

Nas suas torres de marfim, sobranceiros, os decisores acham que estes são assuntos demasiado importantes e sofisticados para que a plebe os possa conhecer e escrutinar. E assim vai Portugal, a maior parte das vezes mal. 

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mais votado JCG 06.01.2017

É isso mesmo ó Celso

O BdP tornou-se numa "amiga" já sem encanto (cheia de peles gelatinosas e rugas) , mas ainda bem cara e exigente de prendas e mordomias.

comentários mais recentes
Carlos 08.01.2017

Não entendo, com tudo o que tem acontecido à banca portuguesa, que o BdP mantenha as mesmas pessoas à frente, com regalias que nenhuma empresa privada dá, mesmo aos gestores de topo. São pessoas competentíssimas, honestíssimas... e no entanto a banca está num caos. Competentes não são, com certeza.

Jorge Cunha 07.01.2017

Celso
Mas o que é que esperava dessa delegaçãozinha do BCE a que pomposamente chamamos
Banco de Portugal. Mania das grandezas!

JCG 06.01.2017

É isso mesmo ó Celso

O BdP tornou-se numa "amiga" já sem encanto (cheia de peles gelatinosas e rugas) , mas ainda bem cara e exigente de prendas e mordomias.

Mr.Tuga 06.01.2017

São assim a "elites" tugas!
Por alguma razão este ESTERCO (retrete da Europa) de sitio está cada vez mais atrasado e na cauda da OCDE!

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