Raul Vaz
Raul Vaz 14 de Dezembro de 2016 às 00:01

O adeus de Guterres

António Guterres, que os conhece, disse o essencial: a linguagem corporal do seu "velho amigo", Marcelo, e do seu "querido amigo", Costa, não engana.
Foi em Nova Iorque, num dia solene. Ao jurar a carta das Nações Unidas, Guterres quis mostrar que está tranquilo com o seu país. "O primeiro-ministro e o Presidente da República pertencem a partidos diferentes, mas estão ambos aqui: mais do que as palavras, a sua linguagem corporal mostra como estão unidos." Agora no topo do mundo, o ex-primeiro-ministro socialista gosta do que vê. Longe vai o pântano e ter dois amigos ao leme tranquiliza.

Marcelo e Costa estão unidos, de facto. E estão mais unidos do que há um ano quando tudo começou. Aí, talvez Marcelo temesse a vinda do diabo; e talvez Costa visse na geringonça um puzzle de mil peças. Agora, se deles depender, a coisa vai até ao fim. E Guterres, conhecedor de ambos, encontrou a melhor definição para o que por cá se passa: a empatia pessoal também ajuda na política.

Se nada de extraordinário acontecer, vai ser assim. No plano interno, dificilmente o PS terá uma derrota nas autárquicas do próximo ano, o que afasta cenários de crise; é previsível que o sistema financeiro ganhe alguma aderência ao tecido económico; as projecções macro alimentam a confiança.

Resta saber se nada de muito mau virá de fora, num mundo virado do avesso onde a incógnita Trump é o maior risco, e onde as eleições em vários países europeus, com a Alemanha à cabeça, podem ser a perfeita desculpa para endurecer o discurso contra os pobres do sol. Há medo do imprevisível. E razões para isso.

Os efeitos do Brexit só estarão efectivamente no terreno no próximo ano. A redução do poder de fogo mensal do BCE já começou a vitimar a nossa dívida pública, que precisa dessa rede de segurança para se manter a um custo aceitável. A Europa é cada vez mais uma manta de retalhos. E a ONU, como reconhece o senhor que se segue, precisa de urgente mudança.

Não se estranha que, visto de cima e de longe, o Portugal da geringonça que Marcelo tem apadrinhado com carinho seja um canto apetecível e promissor. Um país sereno, estável e "amigo".

O discurso de Guterres, virado para dentro na hora de ir (ainda mais) para fora, tem algo de nostálgica despedida. Mas com o faro político de quem sabe. Marcelo e Costa construíram, de facto, uma dupla. Cujo desfecho António Guterres quis ajudar a reforçar. Com isso, reforça a imagem do país no exterior. E coloca fichas numa aposta que cada vez mais é segura – dificilmente o PS encontrará, nas próximas presidenciais, melhor candidato para apoiar do que Marcelo Rebelo de Sousa.

Falta uma peça a este puzzle. Chama-se oposição e vai ter, urgentemente, de reanimar sinais de vida. Mas essa é a peça que já não interessa a Guterres. 

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comentários mais recentes
OH RAUL ACABA COM A REBALDARIA Há 2 dias

OH HOMEM, AQUI NÃO SE PODE VOTAR E APARECE SEMPRE UM COMENTÁRIO MAIS VOTADO!

ACABA COM ESTA INTRUJICE, HOMEM!

Luis Há 2 dias

Tarde e más horas estás a virar o bico ao prego. Afinal a Geringonça recomenda-se. Quanto ao que vier de fora se algo de muito negativo vier bem poderá ser o Papa Francisco o 1º Ministro que estamos sempre lixados. Quanto à oposição? Qual? Sinais de vida? Essa está enterrada por muitos anos e bons.