Tiago Freire
Tiago Freire 08 de junho de 2017 às 00:01

O "carro-vassoura" da banca ibérica

O Popular caiu e o Santander engordou. A resolução do primeiro vem, para já, toda certinha e direitinha, ao contrário da fumarada que rodeou e continua a rodear as intervenções na banca portuguesa.
Este caso merece ser analisado e acompanhado com atenção. Já tivemos alguns "case studies" de como não fazer as coisas (Olá, BES); talvez tenha chegado o tempo de termos um que efectivamente funcione como é suposto.

Há vários grandes méritos da operação. O primeiro é a ausência de apoio público no resgate a um banco, um banco ibérico com dimensão considerável. Outro é a entrega do Popular a uma instituição sólida, credível e com "track record", e não a um fundo que hoje compra um banco e amanhã vai aos saldos de outra coisa qualquer. Outro ainda, fundamental, é a protecção dos depositantes, de todos eles.

Como em tudo, há outro lado, naturalmente. Há muitos milhares de accionistas do Popular (eram mais de 300 mil no final de Março) que viram o seu investimento arder, bem como os detentores de obrigações menos garantidas. A estes servirá de pouco consolo lembrarem as palavras das autoridades espanholas, que foram garantindo nas últimas semanas que o Banco Popular estava sólido e iria recuperar. Como vimos nos bancos portugueses que foram ao charco, o discurso lembra sempre o do célebre cavaleiro negro dos Monty Python, que se esvaía em sangue enquanto assegurava, cheio de bazófia, que não sofrera mais do que ferimentos superficiais. Não era assim, afinal. Vingou, mais uma vez, o princípio de que os depositantes merecem toda a protecção; os investidores, nenhuma. Um conceito excessivo, injusto, e que dificulta naturalmente a atracção de investimento para qualquer banco afectado por uma sombra de fragilidade, exactamente aqueles que mais precisariam de reforço de capitais privados.

Com esta solução, o Santander dá mais um salto. Ganha escala em Espanha e em Portugal. Tem espaço para sinergias, que provavelmente levarão, como sempre, a mais destruição de emprego no sector bancário. É inevitável, em nome da eficiência e do racional financeiro da operação.

Para os portugueses, a solução é boa. As operações bancárias não sofreram qualquer quebra e o Totta é um banco eficiente, estável e com provas dadas no seu compromisso local.

Com o explícito beneplácito das autoridades europeias, o Santander é cada vez mais o "carro-vassoura" da banca ibérica, recolhendo os mais débeis e seguindo em frente. Entre as várias soluções, todas elas com destruição de valor, esta é uma boa via.
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comentários mais recentes
5640533 09.06.2017

Para soluções como esta é preciso alguém por perto com dinheiro. Cá não há-

Anónimo 08.06.2017

Grão a grão, o SANTANDER vai eliminando concorrência, nomeadamente em Portugal, e em simultâneo ganhando monopólio. Se agora já faz o que quer, imagine-se quando quase não tiver concorrência. O caminho será guardar a "massa" debaixo do colchão ou no pote do arroz.

Mr.Tuga 08.06.2017

Certo.

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