Celso  Filipe
Celso Filipe 02 de fevereiro de 2017 às 00:01

O desafio total da Caixa

Depois do erro de "casting" que deu pelo nome de António Domingues (com responsabilidades atribuíveis a todas as partes envolvidas, incluindo a oposição política), eis que Paulo Macedo chega à liderança da Caixa Geral de Depósitos, com a missão de arrumar a casa.
A escolha de Macedo foi inteligente, tanto do ponto de vista técnico como político. O ex-ministro da Saúde e antigo vice-presidente do BCP tem experiência no sector e como tal cumpre os requisitos em termos de experiência profissional. Por outro lado, tendo sido um ministro do anterior Governo PSD/CDS, Paulo Macedo corporiza uma solução do centrão político que o resguarda dos ataques destes dois partidos agora na oposição. Já ninguém fala na questão do vencimento e da declaração de rendimentos, que, tendo sido depositada no Tribunal de Contas, passou a ser um não-assunto.

Aliás, o facto de Paulo Macedo aliar o conhecimento do sector bancário com o traquejo político irá dar-lhe uma legitimidade reforçada e uma capacidade acrescida para ultrapassar os obstáculos que se lhe vão certamente colocar. Na carta que enviou aos trabalhadores, o novo líder da CGD alerta para a dimensão do desafio, colocando-o na esfera colectiva: "Se falharmos, dificilmente nos será dada outra oportunidade equivalente", avisou.

Esta é, efectivamente, a oportunidade para a Caixa mudar de vida. O que passa por se proteger dos lóbis políticos e alterar de forma substantiva a sua actividade creditícia. E passa também por sair do seu pedestal, ir à procura de negócio e centrar-se no apoio às empresas, deixando o comodismo dos projectos imobiliários, um chão que já deu uvas. A Caixa mudou a liderança, mas o maior desafio de Paulo Macedo será, porventura, o de injectar vontade de vencer numa instituição em que muitos se apascentaram, por comodismo ou desilusão.

Paulo Macedo tem razão. Esta é a última oportunidade para a Caixa. E todos os envolvidos têm de ter consciência disso. A começar pelo Governo, que não pode cair na tentação de politizar a actividade do banco, e a acabar nos trabalhadores, que são a imagem da instituição. O desafio é total e definitivo.

P.S.: Passaram 198 dias e a prometida auditoria forense à CGD continua por se realizar. Sem se conhecerem os motivos que conduziram a Caixa a este caminho de pedras, é bem mais difícil aceitar e compreender o trajecto que agora vai fazer. A auditoria forense é uma exigência. Em nome da transparência e do respeito pelos portugueses que, através dos seus impostos, financiam o banco público. Na balança, a verdade deve pesar sempre mais do que o sigilo. 
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comentários mais recentes
nb Há 3 semanas

Mas ainda alguém de boa fé, acredita na justiça em Portugal? Se roubar num supermercado ou se chamar nomes a alguém, vai preso. Não vai, se fizer o que para aí se vê e se for quem para aí se vê. Estão todos na rua a brincar com a cara de todos os espoliados. Enfim, é o país das maravilhas que temos.

HenriqueRodrigues Há 3 semanas

Oxalá tenha sorte,tamanha é a empreitada que tem pela frente para bém de todos nós,mas mais uma vez a culpa irá morrer solteira,o que é uma vergomha.

Anónimo Há 3 semanas

Pelo trabalho realizado previamente por este Senhor, quer nos serviços tributários, quer como ministro da saúde, finalmente temos um Homem numa instituição que é de todos nós, a CGD.Os desafios vão ser muito elevados e desejo que este senhor com letras maiuscolas continue corajoso e patriota