André  Veríssimo
André Veríssimo 01 de fevereiro de 2018 às 23:00

O diabo do bloco central

Se dúvidas houvesse sobre a inevitabilidade do fim do passismo, a eleição do novo líder do PSD veio confirmá-las. Antes de Rui Rio, os entendimentos entre os partidos do bloco central serviam apenas de arma de arremesso mútuo. Agora a sua possibilidade teórica tornou-se o tema político “du jour”.

O tema causa especial ansiedade no PCP e no Bloco. Além da disponibilidade manifestada por Rui Rio para entendimentos com o PS, ela foi sublinhada com especial ênfase por outras figuras gradas do PSD. A frase mais marcante foi de Manuela Ferreira Leite: o "PSD deve vender a alma ao diabo [o PS] para pôr a esquerda na rua".

Passos Coelho pode ser passado, mas a metáfora do diabo pegou de estaca. O líder comunista, Jerónimo de Sousa, também se socorreu dela. "Não se pode estar bem com Deus e com o diabo [o PSD] ao mesmo tempo", atirou numa entrevista ao Público publicada esta quinta-feira.

O aviso é feito mesmo depois de António Costa ter vindo dizer que não mudará de parceiros – "Quando se está bem acompanhado, o que é que se faz? Não se muda de companhia" – e Pedro Nuno Santos ter dito ao Expresso que "a maioria esmagadora do PS" quer alianças com a esquerda.

O líder do PCP não ficou, naturalmente, descansado. Afinal de contas, o PS_começou por saudar a disponibilidade para entendimentos manifestada por Rui Rio. António Costa apelou, num passado não muito distante, a entendimentos com o PSD em matérias como as grandes obras públicas. E sabe-se que o Presidente da República irá pressionar para que esse assuma esse tipo de compromissos em políticas públicas de médio e longo prazo.

Aquilo que se perspectiva é exactamente o que Jerónimo de Sousa diz não querer: um PS que se dá com Deus e o diabo. Ou seja, um PS que viabiliza orçamentos e mudanças na legislação laboral com PCP e Bloco, mas procurará entendimentos em questões como os fundos europeus com o PSD de Rui Rio.

A geometria variável do Parlamento passou a ter outra flexibilidade para o PS e António Costa. Claro que PCP e Bloco não deixarão de atirar aguçadas farpas ao PS se este se associar aos sociais-democratas. O CDS, esse, ficará comodamente a ver de fora. Claro que tudo não passará do registo de um bloco central informal. Bloco central à séria, como em 1983, só mesmo se o diabo vier. Neste caso, o de Passos Coelho
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