André  Veríssimo
André Veríssimo 24 de julho de 2017 às 00:01

O fardo sem fim da resolução

Estão quase a cumprir-se três anos desde o colapso do BES e da resolução que criou o Novo Banco. As datas certas são alturas propícias a balanços. Ricardo Salgado não quis deixar de fazer, de antemão, o seu, em legítima defesa, preparando a sua defesa em tribunal. Mesmo que se discorde, mesmo que indigne, há sempre utilidade em ouvir a outra versão da história.
A narrativa é a do costume. Na entrevista ao Dinheiro Vivo, Ricardo Salgado repete que a queda do BES e os lesados são responsabilidade de Carlos Costa e Passos Coelho; o que correu mal, como a dívida escondida do GES, não era do seu conhecimento ou estava fora do seu controle. Só assume que falhou na escolha de Álvaro Sobrinho e Helder Batáglia - cometeu "erros de julgamento, não de princípio". Acredita quem quer.

Há depois a efabulação, de que se o tivessem deixado a ele, Ricardo Salgado, completar o seu plano, tudo teria corrido bem. Haveria aumentos de capital com dinheiro privado, o BES subsistiria e não haveria lesados do papel comercial. Quando se olha para o Fundo de Resolução e para os quase 10 mil milhões em responsabilidades efectivas e contingentes à conta do colapso do banco, a que acresce todo o dinheiro que se queimou em provisões, é difícil acreditar que tal plano tivesse qualquer chance de ser bem sucedido.

Foi Ricardo Salgado que colocou o banco na vulnerabilidade de ser resolvido. Não aconteceu, nesta crise, com mais nenhum grande banco do sistema português. Ser arguido simultaneamente no Monte Branco, Operação Marquês e Universo Espírito Santo não o condena, mas serve como julgamento ético.

Numa coisa Ricardo Salgado tem razão: ao contrário do que defende Carlos Costa, a resolução está longe se ser um processo exemplar. A venda do Novo Banco é um fiasco. O fardo de 10 milhões de euros que deixou - quando somadas as responsabilidades assumidas pelo Fundo de Resolução na venda do Novo Banco à Lone Star-, penalizam diariamente o sistema financeiro e continuarão a pesar durante longos anos. Seja nos resultados, no "rating" ou na avaliação dos investidores. E acabam por chegar aos clientes na forma de comissões e juros mais elevados.

E a carga ainda poderá crescer. É que se existirem indemnizações a pagar por causa dos processos que decorrem em tribunal, é ao Fundo de Resolução que a conta será endereçada. Na entrevista ao Negócios e à Antena 1, o presidente da APB veio já marcar posição: os bancos "não podem aceitar" mais encargos. O machado da litigância levará tempo a enterrar nos tribunais nacionais, mas a ameaça de guerra está feita.

A resolução é tudo menos um processo limpo, escorreito ou indolor. Três anos depois, o BES ainda é material tóxico e ainda o será por muito tempo. No fim a factura chega sempre: se não pagamos como contribuintes, pagamos como consumidores. Ou das duas maneiras. 

A sua opinião7
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado surpreso 24.07.2017

Um vigarista ,com muita lata

comentários mais recentes
Anónimo 24.07.2017

Resumindo e concluindo, o sector bancário e o sector público de muitas economias está cheio de funcionários que não são lá precisos para o que quer que seja e aquelas têm uma multidão de pensionistas que não descontaram ou produziram para as generosas pensões que recebem. Ponto final.

Caro Andre 24.07.2017

Tanta ingenuidade, não sabe que eles roubam e não lhes acontece nada?

Não vai acontecer nada 24.07.2017

Em Portugal é tudo à grande não os prendem, eu se tiver oportunidade de roubar não penso 2 vezes.

O Sr. jornalista é muito verdinho! 24.07.2017

O governo Costa está a depreciar o banco para o dar por uma bacatela ao Ricardo Salgado.
Os bancos já andam a dizer que o Fundo de Resolução é um encargo muito grande para eles.
Quer apostar que o costa vai atirar o Fundo de Resolução para cima dos contribuintes?
O tuga para o costa é gado.

ver mais comentários