André  Veríssimo
André Veríssimo 30 de Novembro de 2016 às 00:01

O lado negro da Caixa

A ameaça da DBRS de colocar o "rating" da Caixa em "lixo" pode valer menos do que parece. Mas deixa à vista a irresponsabilidade como o processo foi politicamente gerido, pelo Governo e a oposição.
Há quem possa achar que lá fora ninguém nota. Mas a nota emitida ontem pela DBRS mostra como a polémica em volta do banco público e a demissão de António Domingues são um prego no esforço de recuperar a credibilidade do país junto dos investidores.

Como é que se explica que o gestor que delineou um plano de recapitalização e reestruturação do maior banco português, que precisa de uma injecção de 5.000 milhões, já caucionada pelo BCE e a Comissão Europeia, sai porta fora ao fim de três meses sem o pôr em prática? Em Portugal, é política. Em Wall Street, na City de Londres ou em Frankfurt é incompreensível, levanta suspeitas, mina a confiança.

Seria menos importante se a operação de recapitalização não dependesse da colocação de mil milhões de euros em obrigações perpétuas junto de investidores privados. Mas sem esta parte, tudo o resto fica ameaçado, porque passa a ter o selo de ajuda de Estado. Aliás, deixar derrapar a operação pode vir a ter custos significativos. Caso o "não" vença no referendo constitucional em Itália no próximo domingo, as águas no mercado obrigacionista da Zona Euro vão tornar-se ainda mais turvas, dificultando uma ida ao mercado que já se adivinha desafiante.

Outra questão emerge: depois deste folhetim, quantos gestores de topo no sector financeiro estarão disponíveis para aceitar o lugar deixado vago por Domingues?

A opinião da DBRS vale o que vale, mas mostra como este processo enfraqueceu a Caixa. Ninguém duvida de que a notícia da "vigilância negativa" deixa assustados os depositantes. Responsabilidade do Governo, que não soube gerir o dossiê. Responsabilidade da oposição, que subjugou aos seus interesses políticos a importância nacional de preservar a solução encontrada para a Caixa, e a própria Caixa. Responsabilidade de António Domingues, que deveria ter procurado esvaziar desde logo a polémica, congregar e não hostilizar os apoios necessários para levar avante a recapitalização.

Quem alimentou este fogo esquece-se de que ele não arde apenas na Caixa. O banco público, o maior, é referência para todo o sector. Quando, na crise financeira, foi preciso reabrir o mercado para a banca portuguesa, foi sempre a Caixa a avançar primeiro. Apesar de em melhor estado, o sistema financeiro português continua fragilizado: é o segundo menos capitalizado da Zona Euro, à frente apenas do italiano.

Não faltam razões para justificar porque o tema deveria ter sido gerido com pinças, inteligência e bom senso e não como um joguete num recreio da política. Vamos acreditar que assim será daqui em diante. 

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mais votado JCG Há 1 semana

Entregaram o caso a rapazolas embasbacados e deslumbrados com a sua promoção e suposta importância.

comentários mais recentes
5640533 Há 1 semana

Não estou surpreendida pelo que aconteceu. Nests país tudo é bagunca.

JCG Há 1 semana

Recrutamento de gestores?

Abram concurso público, ofereçam como salário o mais alto atualmente pago a directores na CGD, acrescido de 1 e 2 euros (2 euros para o chefe) e exijam para os administradores executivos: 1º doutoramento em economia, finanças, gestão, engenharia informática ou algo relacionada; 2º no mínimo, 20 anos de trabalho técnico, científico ou de gestão em empresas financeiras ou relacionadas, incluindo reguladores e supervisores.

Vão ver que respondem centenas de candidatos.

JCG Há 1 semana

Entregaram o caso a rapazolas embasbacados e deslumbrados com a sua promoção e suposta importância.

José Costa Há 1 semana

Afinal parece que é mais importante discutir o acessório do que o essencial. É assim que eu vejo esta triste situação em volta da instituição pública que mais precisamos esteja sólida e bem gerida.
E no final digam-me: qual é afinal o sexos dos anjos? Ihhh Marques Mendes no seu cavalo............

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