Raul Vaz
Raul Vaz 25 de Novembro de 2016 às 00:01

O manto de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa mudou algumas coisas nas últimas décadas. Aprendeu a refrear a sua inquietação, ganhou uma tranquilidade perante aquilo que não se pode vencer ou mudar, em detrimento da convicção de que todas as guerras são boas para melhorar o país. Mas há algo que não mudou uma vírgula, nos últimos 30 anos: Marcelo não gosta de blocos centrais.
Na exemplar intervenção que teve na Grande Conferência do Negócios, esta semana, disse tudo em 40 minutos. Traçou um retrato do país, das expectativas e da realidade, deu notícias, falou do sistema financeiro. Falou de política. E aqui, foi clarinho como água: "Neste momento, tudo o que seja configurar um centrão artificial, imposto, na governação do país, seria pouco clarificador."

Já nos anos oitenta, Marcelo foi um dos construtores da Nova Esperança que liderou, uma corrente interna do PSD destinada sobretudo a combater os malefícios de um bloco central com o PS.

O Presidente clarifica assim as águas, sendo certo que ninguém nos partidos, neste momento, defende o bloco central. Mais, mesmo que houvesse de tal necessidade, nunca poderia surgir com as duas actuais lideranças: Costa e Passos são demasiado diferentes e agrediram-se demasiado politicamente para uma convivência mínima.

O objectivo do Presidente foi, como tem sido, salientar os progressos institucionais feitos pelos partidos mais à esquerda, e o sucesso político da geringonça, contra todas as expectativas. Falou de estabilidade e de confiança, algo de que necessitamos como de pão para a boca.

Tem razão. Só há uma falha neste raciocínio. É que há reformas estruturais por fazer, e que nunca avançarão com esta maioria parlamentar de esquerda. Basta referir uma das mais importantes, o corte da despesa pública de forma permanente (e isto é muito diferente de adiar investimento, que é a pior forma de cortar na despesa). A reforma profunda e estrutural da função pública, como muitas outras de variável importância, só será possível com um acordo alargado dos dois principais partidos portugueses.

Marcelo sabe-o bem. Mas também sabe que não estamos no momento nem nas circunstâncias adequadas. O tempo é de ano a ano ou, com alguma boa vontade, de legislatura em legislatura. O tempo é de construir blocos, à esquerda e à direita. Porque é com blocos distintos e lideranças estáveis que se abre espaço a políticas reformistas.

Com um ano de Governo PS, a experiência política mostrou a sua validade. Tudo sob o manto cooperante do Presidente, o verdadeiro e principal garante da estabilidade neste país. 
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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

A despesa pública é financiada com os impostos necessários .. ponto final parágrafo . O resto é treta.

Rui Rio é o homem, porque tem carácter e é fiável Há 2 semanas

Com Passos Coelho à frente do PSD e mercê da sua visão ultraliberal de direita radical (que nada tem a ver com a social-democracia de Sá Carneiro e de todos os líderes, até Passos subir à liderança), enquanto Passos for líder, NUNCA será possível um entendimento com o PS.

Rui Rio é homem, porque tem carácter e é fiável Há 2 semanas

Com Passos Coelho à frente do PSD e mercê da sua visão ultraliberal de direita radical (que nada tem a ver com a social-democracia de Sá Carneiro e de todos os líderes, até Passos subir à liderança), enquanto Passos for líder, NUNCA será possível um entendimento com o PS.

PORQUE NÃO FEZ PASSOS AS REFORMAS ESTRUTURAIS ? Há 2 semanas

"Há reformas estruturais a fazer", escreve o articulista, insinuando que essa foi uma falha nas afirmações de Marcelo.
Uma pergunta muito ingénua : PORQUE NÃO FEZ PASSOS ESSAS "REFORMAS ESTRUTURAIS", NOS 4 ANOS DO SEU DESGOVERNO, EM QUE TEVE MAIORIA ABSOLUTA PARA O FAZER ?
Lapso seu, caro Raúl.

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