Pedro Santos Guerreiro
Pedro Santos Guerreiro 20 de outubro de 2010 às 11:33

O medo do FMI

O Estado precisa do Orçamento pela mesma razão que teve de nacionalizar o BPN: não pode correr o risco de esperar para ver.
Se corre mal, o dano agiganta-se. Mesmo que o gigante FMI continue por aí.

Os mercados têm estado a dar credibilidade ao plano de austeridade português, que se cristalizou na proposta do Orçamento do Estado que o PSD quer aprovar com modificações. Nas últimas semanas, o custo das obrigações do Tesouro a dez anos caiu mais de um ponto percentual. E ontem descolámos (pelo menos por um dia) da Irlanda, o que é um óptimo sinal.

O facto de continuar a falar-se na possibilidade de pedir socorro ao fundo de emergência da União Europeia e do FMI pode, portanto, parecer um anacronismo. Não é. Estamos ainda longe de porto seguro. Três coisas têm de acontecer para mantermos a nossa autonomia, e nem todas dependem de nós: o Orçamento do Estado tem de ser aprovado; o Orçamento tem de ser implementado; e os mercados têm de continuar a financiar a economia portuguesa ao longo do exigente ano de 2011.

É por isso que vários economistas continuam a dizer que o melhor é apressar a vinda da equipa do Fundo Monetário Internacional. O principal argumento é de que eles virão de qualquer forma, pelo que mais vale que seja já. Porque a estabilidade política em Portugal vale tanto como um caniço numa tempestade; e porque mesmo uma equipa governativa forte e amparada terá muitas dificuldades em levar até ao fim as múltiplas medidas de restrição que este Orçamento prevê. Acresce o argumento final da racionalidade: os empréstimos deste fundo são substancialmente mais baratos que o custo actual da nova dívida portuguesa.

Todas estas virtudes não bastam, todavia, para que deixemos de tentar até ao limite manter a gestão do País nas mão do Governo eleito. O pedido de ajuda será uma rendição, o desprestígio político total, a que se segue uma reacção alérgica de qualquer investidor. Por outro lado, o FMI não fará outra coisa que não seja cortar ainda mais na despesa. É por isso que José Silva Lopes diz que "desta vez" tem medo do FMI: porque agravará ainda mais a recessão económica em que Portugal está prestes a entrar.

Não sabemos durante quanto mais tempo seremos acudidos pelo Banco Central Europeu, nem a reacção que provocaria um pedido de ajuda ao fundo da União Europeia. Como se tem visto na expulsão de ciganos de França e na rejeição ao multiculturalismo na Alemanha, o centro de poder da União está a fechar-se dos seus medos, dos seus preconceitos e dos seus nacionalismos perigosos. É o suficiente para percebermos que nem alemães, nem franceses serão defensores fanáticos de uma ajuda a Portugal. É, pois, melhor evitá-la.

O Governo devia olhar para o que se está a passar em França, que está perigosamente incendiada por causa do aumento da idade de reforma de 60 para 62 anos (uma bagatela ao pé da austeridade portuguesa). Os portugueses do século XXI são mansos mas não são tansos, e tiveram avós no século XIX que andaram de faca na liga.

Sem Orçamento estamos financeiramente fritos, com Orçamento estamos economicamente fritos. A finança vence sempre: o urgente vai prevalecer sobre o importante.


psg@negocios.pt





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comentários mais recentes
alexdgon 22.10.2010

Vejam o que o IGCP andou a fazer este ano, vejam a montanha da dívida que há para "reciclar" para 2011 e 2012, vejam o buraco na SS e CGA, o jogo acabou. O sistema está insolvente, o PEC3/OE2011 mesmo aprovado com todos os votos da assembleia, mesmo com os adereços de supostas melhorias, só vai servir para ganhar mais 4 a 6 meses de vida. Ou confrontamos os problemas de raíz e mudamos o paradigma económico, ou iremos de PEC em PEC a espatifar a pouca riqueza e geração de valor que ainda temos a tentar sustentar um sistema falido até que não sobrará nada.

Tlgsm 21.10.2010

Sr. Zap, há muito que venho simplesmente lendo os comentários das várias pessoas, mas os seus são impossiveis de passar ao lado.
A culpa disto tudo é que os partidos continuam à procura do culpado deste buraco, mas esquecem-se que o tempo que perdem a procura podia ter sido utilizado para resolver logo o problema do país. Pode dizer que o Cavaco e o seu governo criaram problemas ao país, mas já que identificaram esses problemas, porque é que os Governos dos Socialistas não os resolveram? Falta de tempo não foi decerteza, tiveram lá 14 anos. Falta de dinheiro para investir também não foi, foram os que mais verbas da UE utilizaram. O que faltou foi competência e politicos que não pensem nas eleições.

Com o dinheiro que esbajaram da UE em políticas sociais que na altura encheram os bolsos a muita gente, deviam era ter criado um País que produzisse alguma coisa, para não termos de ir comprar tudo lá fora.

Deixem de apontar o dedo porque todos têm culpa. Uns fizeram coisas mal, outros nada fizeram para emendar.

Deixem vir mas é o FMI que esse não se preocupa com eleições, não esconde números, e é imparcial nos cortes que faz. Não ponham a culpa num dirigente que só este ano tomou as rédeas de um Partido, porque espero muito bem que ele chumbe este Orçamento de Estado, se não vamos adiar a intervnção externa que é o que precisamos

ObservadorXII 21.10.2010

- Despesas salariais com deputados em 2010: 12.3 milhoes de euros
- Deputados na Assembleia da Republica em 2010: 230
- Salario anual de um deputado: 53.5 mil euros
Antes de subsidios por:
- trabalho em dias de ferias e feriados (mas se nem em dias uteis trabalham!): 500 mil euros
- Subsidios transporte: 250 mil euros
- "Ajudas de Custo": 3 milhoes de euros
- "Subsidios de Reintegracao de Deputados": 1 milhao de Euros
- Transporte de deputados: 4 milhoes de euros (17mil euros/ano por deputado)...
- Deslocacoes e estadas: 2.4 milhoes de euros (10 mil euros por deputado)
- etc, etc, etc
Leiam o orcamento da AR em: http://www.parlamento.pt/Documents/OrcAR2010Sm.pdf
. Garanto que e uma leitura hilariante

ObservadorXII 21.10.2010

Nao deixa de ser interessante para poder avaliar o caracter da classe politica que governa Portugal: O orcamento da Assembleia da Publica para 2010 (disposivel no website da AR em http://www.parlamento.pt/Documents/OrcAR2010Sm.pdf). Algumas pequenas perolas deste documento:- Despesa total da AR em 2010 (ano de suposta "crise"): 191 MILHOES de Euros- Custos com pessoal (deputados e "boys"): 49 MILHOES de Euros (dos quais, para os senhores deputados apenas, 12.3 MILHOES de Euros)- Subvencoes para Partidos Politicos e para Campanhas Eleitorais (?????): 91 MILHOES de Euros (sem duvida a minhas favorita)Isto sao apenas as despesas anuais da AR - falta governo, municipios, institutos, etc

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