Tiago Freire
Tiago Freire 29 de outubro de 2017 às 23:00

O monopólio da poupança

A questão da poupança, associada à reforma e às tendências demográficas é, ou devia ser, um campo prioritário para as políticas públicas.

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No entanto, a questão tem sido, por um lado, ignorada, e por outro engolida pelas prioridades de emergência orçamental e financeira ou, pior, por preconceitos ideológicos que só agudizam o problema.

Os números são, como de costume, eloquentes. Estamos com uma taxa de poupança, de acordo com o INE, abaixo dos 5,5% do rendimento disponível, o que significa um nível semelhante ao de há perto de 10 anos, sendo que tem andado nos últimos anos até um pouco abaixo, perto dos 5%.


Há vários motivos para este fenómeno, que não se esgota no argumento fácil de que as pessoas não têm rendimento suficiente para poupar. Até porque houve momentos de aperto, como aqueles que o país passou, em que a poupança até se portou bem, com as pessoas a retraírem o consumo devido à incerteza, e poupando mais. Se a disponibilidade é uma causa mas não a única, é importante também olhar para os incentivos. E estes são fracos.


Os bancos, tradicionalmente grandes captadores de poupanças via depósitos e outros produtos, estão agora pouco interessados. Não podem atribuir uma remuneração significativa a longo prazo, pelo ambiente de taxas de juro centrais que vigora há anos, e também já ajustaram o seu rácio de transformação para um nível saudável. Ou seja, não precisam de se digladiar pelos depósitos, porque não estão a dar muito crédito e porque já têm alternativas de financiamento "normais", nos mercados grossistas.

A grande alternativa tem sido a dívida do Estado para o retalho, que já vai muito para além dos velhinhos e históricos Certificados de Aforro. Dão um pouco mais que os depósitos, são extremamente populares e ajudam o Estado a financiar-se internamente, logo ficando menos dependente dos humores dos mercados internacionais.

Mas a oferta está incompleta. Os PPR, verdadeiros campeões da poupança dos portugueses, foram desvirtuados nas suas características e o corte do benefício fiscal retirou o incentivo de curto prazo para fazer uma poupança de longo prazo. Seria importante voltar à normalidade, reforçando os segundos e terceiros pilares da Segurança Social. A esquerda será contra, porque entende (mal) que quem poupa são os ricos, e porque não gosta de engordar as carteiras de activos dos gestores privados, ignorando que este é um problema de todos.

Mais do que criar um monopólio da poupança, é dever do Estado abrir mais vias para resolver este problema. Este Orçamento para 2018 é, novamente, uma oportunidade perdida. 
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