Tiago Freire
Tiago Freire 06 de junho de 2017 às 00:01

O preço da soberania

O caminho vai-se fazendo. Agora que se respira melhor, o tema da dívida, do seu peso e do que fazer com ela deixou de ser tabu. Ainda bem.
Não é irrelevante falar do assunto e há sempre possíveis consequências dessa discussão, sobretudo em momentos de maior nervoseira dos sensíveis mercados. Mas por regra é um custo aceitável. Tempos houve em que não se podia falar, conjecturar, discutir ou pensar alto. E havia motivos para isso, quando os investidores estavam à procura de mais um prego para ferrar no nosso caixão. Mas esse silêncio, essa auto-censura envergonhada, não é a normalidade. O debate sim, e chegou.

Depois do grupo de trabalho composto por PS e Bloco de Esquerda ter divulgado conclusões relativamente conservadoras - e sem qualquer estrondo nos mercados - agora é a vez da Plataforma para o Crescimento Sustentável, organização da sociedade civil mas com várias figuras ligadas ao PSD. As propostas parecem mais comedidas, como eventualmente seria de esperar, mas na verdade não estou certo de que isso seja assim. Destaca-se, por exemplo, a sugestão de recurso às famosas Eurobonds para financiar parte das nossas necessidades.

Esta proposta, que naturalmente só existirá com total consenso europeu, é uma verdadeira revolução. As próprias Eurobonds eram uma palavra feia há poucos anos, uma forma de os pelintras se juntarem aos certinhos para pedir dinheiro mais barato. Agora é a própria Europa quem fala nisso, e se a Zona Euro se aguentar até lá as Eurobonds parecem ser uma inevitabilidade histórica.

Não estou é certo que a proposta de PS e Bloco - que pede baixa dos juros e extensão de maturidades - seja mais disruptiva do que a da Plataforma para o Crescimento Sustentável.

Porque não teremos Eurobonds sem uma integração europeia muito mais forte. Com um Orçamento centralizado, medidas decididas à distância, um Super-ministro das Finanças que falará uma língua muito parecida com o alemão.

Previsivelmente sem o conhecimento e a sensibilidade locais, para o bem e para o mal. Estamos a falar de soberania, de opções que não são apenas financeiras ou económicas, são absolutamente políticas. O custo acrescido do nosso financiamento é o preço da nossa soberania, é o prémio de risco da nossa margem para acertar ou para disparatar.

Há prós e contras nas duas propostas e nas mais que existem. Nenhuma é inocente, nenhuma é inócua. E algo terá, a prazo, que ser feito.

Que discutamos, sim, livremente, no Parlamento, na academia, em casa e no café. E desconfiemos das soluções fáceis, porque quem tem uma dívida da dimensão da nossa não gozará de um caminho limpo e sem obstáculos.
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comentários mais recentes
Black Fraude 06.06.2017

27 economias diferentes e cada uma a lutar por si, mas a centralização parece-me uma ideia interessante. Para quê um BdP que apenas aplica diretivas do BCE? Não chega o BCE?

Anónimo 06.06.2017

A dívida foi alimentada para artificialmente criarem diferença entre a classe alta e a classe média... o problema é que a classe alta viveu acima das suas possibilidades e acabou por quase arruinar o país, hipotecou receitas futuras e tomou riscos demasiado caros... agora é preciso começarem a pagar

Mr.Tuga 06.06.2017

Faz todo sentido os xuxas e geringonços "reestruturarem" a divida!!!!!!!

Assim, com a folga e poupança que originar, podem colocar todos os tugas de 1ªFP com nivel de vida identico ao do Luxemburgo!

surpreso 05.06.2017

"Deixou de ser tabú" ?Nunca foi "tabú" ,é para pagar

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