André  Veríssimo
André Veríssimo 12 de dezembro de 2017 às 23:00

O risco de confundir a Raríssimas com a floresta

A associação Raríssimas desenvolve um trabalho de grande mérito no apoio a quem tem doenças raras, muitas vezes sem cura e sem alternativa a que recorrer. A demissão de Paula Brito e Costa era a única forma de tentar preservar esse trabalho que a própria iniciou. Teve, ao menos, esse rasgo de bom senso.
A associação foi distinguida, entre outras instituições, numa iniciativa deste jornal, o Prémio Saúde Sustentável. Paula Brito e Costa era um dos 17 membros do júri. O que justificou a escolha, auditada, foi a importante missão que a Raríssimas desempenha.

Segundo a reportagem da TVI, Paula Brito e Costa deslumbrou-se com o protagonismo que a associação lhe trouxe, com o acesso à elite política e empresarial, a ponto de confundir a esfera da Raríssimas com a sua própria. Sempre que assim acontece, é pequeno o passo até à queda no abismo do abuso de poder e do peculato. A missão tem de estar acima de quem a dirige, não o contrário.

Os benefícios próprios que retirou, se não ilegais – caberá ao Ministério Público investigar e aos tribunais decidir –, são pelo menos moralmente condenáveis. O mais grave é que ameaçam a sobrevivência da Raríssimas e lançam dúvidas sobre o chamado terceiro sector e as muitas causas sociais que este sustenta em Portugal.

O apoio a esse terceiro sector, pelo menos da parte dos particulares, depende da confiança. Se a confiança na gestão é abalada, são as causas que sofrem, seja no dinheiro que recebem, no voluntariado ou na procura de utentes. Somos tentados a confundir a árvore com a floresta. Se é assim na Raríssimas, será diferente noutras associações? Será, por certo, na grande maioria delas.

Mas o Governo tem de mostrar que o Estado dispõe dos instrumentos para garantir que as IPSS merecem o dinheiro que recebem, seja em subsídios públicos, seja em donativos particulares. O que passa por uma investigação séria a este caso, mas também por um reforço da vigilância e uma publicidade mais notória das inspecções efectuadas. Seria também importante promover um maior escrutínio público, facilitando, por exemplo, o acesso às contas.

O caso mostra ainda como as portas giratórias entre o poder político e as IPSS são pasto para conflitos de interesse, desde logo porque aquelas vivem, em regra, com fundos públicos. Este é mais um factor que alimenta a desconfiança. A demissão do secretário de Estado da Saúde (a 14.ª saída do Governo), que recebeu 63 mil euros como consultor da Raríssimas entre 2013 e 2014, procura travar danos maiores, mas não acaba com a suspeita de que ainda não sabemos tudo sobre este caso. 

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mais votado Anónimo Há 3 dias

Pagar mensalmente a cada um de 3 directores de uma organização a quantia de 10 mil euros sem qualquer necessidade ou justificação económica ou pagar 1000 euros a 30 colaboradores com cargos não directivos que também ocupem um posto de trabalho efectivo sem qualquer necessidade ou justificação por estarem em demasia na organização ou por existir uma tecnologia muito mais económica, e por ventura mais eficiente, que os pode substituir, é exactamente a mesma coisa. É eu e a minha família, sem nada termos a ver com isso, sermos extorquidos mensalmente em 30 mil euros para de forma indecorosa entregar o fruto desse saque a outrem, sem qualquer razão ou fundamento válido. Isto pode-se passar, e em Portugal passa-se constantemente, com fundos públicos entregues a uma instituição de solidariedade social, subsídios estatais e isenções fiscais avulsas e discricionárias a empresas públicas ou privadas, ou num qualquer serviço público flagelado pelo sobreemprego a nível directivo e não directivo.

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 dias

Portugal foi campo fértil para o uso e abuso do factor "self entitlement" típico das Repúblicas das Bananas, das favelas e dos guetos do mundo (pseudo)desenvolvido, caracterizado pela existência do ser que já não é só um ser, já não é só uma pessoa com deveres e com tudo aquilo a que uma pessoa deve ter direito, mas um título académico ou hierárquico que tem obrigatoriamente que usufruir, à conta e com prejuízo do Estado, da economia e da restante sociedade, de uma vida faustosa segundo as suas expectativas individuais por mais caprichosas e irrealistas que elas sejam, mesmo que na realidade não exista procura para o trabalho que insistentemente sabe, pode ou quer oferecer ao empregador ou ao mercado em sentido lato, e por isso captura o empregador e subsidiador Estado e parasita-o de todas as formas virulentas que conseguir engendrar. A personagem da Raríssimas, sabendo-se a viver num sítio assim, até exigiu que a tratassem por doutora sem ter doutoramento ou mesmo uma licenciatura.

JCG Há 3 dias

Bom, se calhar os serviços de assessoria prestados pelo ex-secretário de Estado à associação eram orais e de língua... só assim compreendo o sentido de uma fotografia em que o tipo aparece agarrado à dama com a língua de fora e bem esticada...
Que tal obrigarem-no a devolver em duplicado a quantia que a associação lhe pagou?

JCG Há 3 dias

Há um tipo "anónimo" que em tudo o que é sítio por aqui debita uma ladainha como se tivesse engolido uma cassete e que hoje dá a entender que o Estado lhe cobra mensalmente 30 mil euros em impostos. Se é assim, é de supor que tal crânio facture mensalmente pelo menos uns 70 mil. Bom, gostava de saber o que é que esse superprodutivo iluminado produz de útil para a comunidade para valer tão elevada recompensa. A esses tipos costumo dizer que se não houvesse muita gente (outros; pagos a salários mínimos) a limpar a trampa que produziram desde que nasceram, certamente já teria morrido sufocados em merda* e cobertos por moscas varejeiras.

JCG Há 3 dias

Caro escrevinhador, você é muito inocente e crédulo. Cada vez mais, onde houver dinheiro por ali e fiscalização incompetente ou negligente, haverá abuso. A fiscalização é a única garantia para moderar abusos e também é preciso que a sanção seja dissuasora, ou seja, sempre maior que o benefício indevido. Cabe ao governo legislar para dificultar o abuso. A referida organização ao que parece é uma associação. Se é uma associação, tem sócios. Qual o papel dos sócios na fiscalização da gestão? Medidas legislativas urgentes: 1ª limitação de mandatos para todos os eleitos em associações; 2ª eleições distintas para órgãos de direção e de fiscalização (listas autónomas); 3º reforçar os poderes e responsabilidades dos conselhos fiscais; 4º assegurar condições para que as assembleias gerais (AG's) não se transformem em farsas. Para todas as associações, incluindo sindicatos. Voltando à questão, gostava de ver testemunho documental dos serviços prestados pelo patusco ex-secretário de estado...

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