Tiago Freire
Tiago Freire 18 de maio de 2017 às 00:01

O sobe e sobe do imobiliário

Há ou não uma bolha no imobiliário em Portugal? Que os preços têm vindo a subir de forma acelerada todos já sentimos, e a tendência é corroborada pelas estatísticas. No entanto, uma subida não é necessariamente uma bolha. Depende dos fundamentais na base do movimento e da sustentabilidade do mesmo. E é aí que as opiniões se dividem.
Se Lisboa e Porto, inundadas de turistas (o que é bom!), sentem o efeito na pele, o fenómeno já chegou a Bruxelas. É que a subida abrupta dos preços do imobiliário faz parte do cardápio pelo qual se medem os desequilíbrios de uma economia. E nós estamos bem perto de atingir o limite a partir do qual se considera que o desequilíbrio, formalmente, se verifica. Isto não tem consequências de maior para Portugal, que vive num pânico recorrente de putativas sanções da Comissão Europeia. É apenas um sinal, mais um, de uma situação com impactos dissonantes na vida dos portugueses.

Os preços estão perto de onde estavam quando rebentou a crise, o que não pode deixar de ser uma boa notícia para os proprietários, que vêem a sua riqueza aumentar. O outro lado da moeda é o custo mais elevado para quem quer comprar casa, nomeadamente em certas zonas de Lisboa e Porto, que por via da febre do alojamento local se tornaram sonhos impossíveis para a esmagadora maioria dos portugueses. É a lei da oferta e da procura a funcionar. Uns ganham, outros perdem.

Outro perigo, e é isso que preocupa Bruxelas, é que estejamos perante uma bolha, que rebente nas mãos de compradores de casas que entretanto se desvalorizaram e, consequentemente, nas carteiras de crédito dos bancos, que avaliaram as casas "por alto". Junte-se a isto um fenómeno que afecta os arrendatários, como eu: com a procura por casas a aumentar e o crédito à habitação a voltar a jorrar, as rendas voltam a disparar, até pela escassez de oferta. Portugal já tem uma das percentagens mais elevadas da Europa em termos de casa própria, e a tendência vai naturalmente acentuar-se.

A História parece repetir-se, é verdade. Mas os bancos sempre aprenderam alguma coisa com a brutalidade da crise, e estão a proteger-se mais. Só o tempo dirá se de forma suficiente. E, diga-se, o gás do turismo não vai desaparecer de um momento para o outro.

É aqui que entra a importância das políticas públicas, que sem pretenderem obrigar os privados a fazer isto ou aquilo devem dar-lhes os incentivos que os levem a fazer escolhas colectivamente mais saudáveis.

No arrendamento, nada de relevante foi feito, antes pelo contrário. E basta deixar a pergunta: quantos dos que hoje contraem crédito sabem quanto lhes passará a custar a prestação quando a Euribor começar a subir? Pois.

As bolhas não se resolvem ordeiramente quando rebentam. Vão-se mitigando, com os incentivos certos, antes de se formarem. Não sei se há bolha ou não. Parece é que as autoridades estão convencidas de que não. Esperemos que tenham razão. 

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comentários mais recentes
Yalioblio Há 1 dia

A continuar assim a subida de preços de casas quer no arrendamento quer na compra, a maior parte dos portugueses vão passar a morar na rua. Vai ser pior que uma bolha. Vai ser um desastre.

Anónimo Há 4 dias

Temos de ter uma análise real da realidade. Primeiro os preços do arrendamento onde esta "bolha" se verifica subiram em alguns casos 300%. Ou seja, se esta percentagem não é típica de uma bolha o que é? Depois temos de ver quem são os compradores? Ou seja o que acontece à classe média portuguesa?