André  Veríssimo
André Veríssimo 28 de novembro de 2017 às 23:00

O T-Roc não é para sempre

O recorde de 240 mil automóveis que a Autoeuropa vai construir em 2018 não será eterno. O T-Roc é um modelo central para a estratégia comercial da Volkswagen nos próximos anos, mas como todos os outros terá o seu tempo.

O efeito benéfico que aquela enorme escala de produção terá sobre todo o ecossistema de fornecedores pode partir tão depressa como está a chegar. O mesmo acontece com os 2.400 novos empregos criados só na unidade de Palmela por causa do T­-Roc, fora os muitos outros indirectos. Prescindir deste dinamismo não é uma inevitabilidade. Basta ser capaz de atrair outros modelos de igual importância capital para o grupo alemão.


Isso depende de factores de competitividade. Muitos deles escapam ao controlo da própria fábrica. Mas há um, de imenso valor, que só depende da administração e de quem nela trabalha: a paz social.


Ora tudo aponta para que também o segundo pré-acordo negociado com a comissão de trabalhadores (CT) no âmbito do
aumento de produção  vá ser chumbado. Mais uma vez com política rasteira pelo meio. Fernando Gonçalves, o novo coordenador, fez-se eleger com uma campanha populista, prometeu um acordo que não podia cumprir e está debaixo de fogo dos sindicatos, que nunca aceitaram que fosse a CT, e não eles próprios de forma directa, os interlocutores e protagonistas da negociação.

A ponto de se tornar difuso se os trabalhadores vão referendar o acordo ou a própria CT, a julgar pelas declarações dos sindicatos. "O pessoal sente-se um pouco enganado com a nova comissão de trabalhadores que prometeu mundos e fundos e depois não aconteceu nada disso", diz o responsável do Sindel, afecto à UGT.


O chumbo do primeiro acordo fez cair a anterior CT. E pode fazer o mesmo a esta. Haverá condições para eleger uma terceira? Ou será o enterro do modelo que tem feito a diferença na Autoeuropa e que permitiu, por exemplo, manter postos de trabalho quando a produção caiu.


As negociações duram há cerca de um ano. O tempo está, entretanto, a esgotar-se.  Será a remuneração de 125% ao sábado e domingo e os 150 euros mensais para quem fizer laboração contínua oferecidos pela administração parca recompensa? Quantos portugueses podem dizer que gozam das mesmas condições, a que acresce uma série de outras regalias oferecidas pela empresa alemã?


Está no direito dos trabalhadores reivindicar uma compensação justa. Mas com o bom senso de não eternizar um conflito, em boa parte instigado com motivações políticas, que pode comprometer a atractividade futura de uma fábrica que tanto traz à região de Setúbal e ao país
.
Saber mais e Alertas
pub