André  Veríssimo
André Veríssimo 21 de Outubro de 2016 às 00:01

O poder ilegítimo da DBRS

A agência DBRS tem uma bomba na mão. E pode decidir usá-la hoje ao prenunciar-se sobre o "rating" de Portugal. Pode, mas é praticamente certo que não vai. O que é questionável é como ainda preserva esse poder.
A agência canadiana saltou para a ribalta do mundo financeiro ao tornar-se a linha que marca a fronteira entre Portugal e o acesso ao BCE. Mario Draghi frisou-o novamente na quinta-feira: se o Estado português perder a única classificação de risco acima do grau especulativo, vulgo "lixo", a autoridade monetária deixa de comprar-lhe a dívida. Esta deixa ainda de servir de colateral para os mais de 25 mil milhões de euros que o BCE tem emprestados à banca portuguesa em operações de cedência de liquidez, uma boa parte deles garantidos por títulos do Tesouro. Em suma, um corte de "rating" atiraria o país para um novo pedido de apoio.

A probabilidade de isso acontecer parece tão remota como ganhar o Euromilhões. Desde logo porque a situação económica de Portugal, não sendo famosa, é inegavelmente melhor do que há três anos. Tal como a orçamental. Só a dívida pública continua perigosamente elevada. Mas já então o era. A DBRS gosta de alimentar um suspense mediático sobre a questão, mas é difícil montar um fundamental credível para um corte do "rating" ou até uma revisão negativa da perspectiva futura, que está em "estável". Mário Centeno, que reuniu com a agência, diz que esta até fez comentários "muito positivos".

Mario Draghi, que conta mais para este rosário (e tem um português como colega), veio ontem tirar margem para que a DBRS possa ser demasiado incómoda. Numa resposta preparada, a adivinhar a pergunta sobre a decisão da agência canadiana, Mario Draghi salientou os "progressos notáveis" feitos por Portugal, num elogio implícito ao Governo, que acaba de se comprometer a atingir em 2017 o maior excedente orçamental (sem juros) da Zona Euro. António Costa, pragmático, fez por entregar resultados onde era cirúrgico: mostrar que está a seguir o roteiro do BCE, deixado por Draghi quando cá esteve em Abril. Recebeu até o mesmo respaldo que Passos Coelho.

A agência não vai morder, mas continuará a ladrar enquanto o BCE lhe conferir este poder inusitado e ilegítimo, como assinalavam esta semana três analistas do Crédit Agricole. Que sentido faz o destino de um país andar suspenso pela decisão, sempre subjectiva, de uma agência de "rating", seja a DBRS ou as outras? Subjectiva, quando não preconceituosa. Um estudo publicado pelo fundo de resgate da Zona Euro, de que o Negócios dá conta esta sexta-feira, conclui que a avaliação do risco de Portugal, Chipre e Eslovénia feita pelas grandes agências é pior do que os indicadores justificam. O país está longe de ser um mar de rosas, mas é inaceitável que uma agência tenha o poder de o pintar de negro. Ou até de perturbar a política monetária do BCE. Já era tempo de a Comissão Europeia pôr fim a esta dependência. Há uma mão-cheia de anos que se anda a falar nisto.
A sua opinião11
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Mr.Tuga Há 1 semana

Cheira-me co o Antoninho Bost*a os "subornou"! Não se percebe...

comentários mais recentes
xxx Há 1 semana

Se não estiveres em posição de morder a mão que te alimenta, beija-a.

Anónimo Há 1 semana

Portugal esta destinado ser governado por comunistas marxistas rosas

BCE nao os tira

Marcelo tambem nao

Que governem por muitos anos

Esta como outras agência fazem parte do sistema Há 1 semana

"financeiro" cuja missão é vender o dinheiro o mais caro possível. Atuam como avaliadores cuja missão é fazer com que os empréstimos sejam o mais caro possível, nem que para isso tenham de deturpar tudo e todos. Estão ao serviço daqueles que por detrás mexem os cordelinhos.

Lol Há 1 semana

Jornalistas de pacotilha... A dbrs tem o país na mão porque todas as outras consideram a divida de portugal lixo... parece que quer voltar aos tempos dos ratings de conveniencia...

ver mais comentários