Celso  Filipe
Celso Filipe 06 de Outubro de 2016 às 00:01

O vestido preto de Marcelo

Em sete minutos Marcelo Rebelo de Sousa despachou o discurso do 5 de Outubro. Mais curto do que aquele que fez na noite do dia anterior, na inauguração do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia da Fundação EDP.
Os discursos não se avaliam pela sua duração, mas sim pelo seu conteúdo, e o de 5 de Outubro será uma espécie de preâmbulo, se um dia as intervenções presidenciais forem publicadas em livro.

O Presidente da República desiludiu os que esperavam um discurso com recados ao Governo ou definição de linhas vermelhas. Nada disso. A única surpresa na intervenção de Marcelo foi o agradecimento à Monarquia no dia em que se celebra a implantação da República.

Marcelo Rebelo de Sousa fez um discurso de valores e o único recado que enviou teve como destinatário a classe política como um todo: os portugueses estão cansados de casos a mais e princípios a menos. Lembrou depois que o poder é efémero e que os políticos precisam de ser humildes e estarem próximos de quem os elegeu. Um conjunto de generalidades, relevantes é certo, mas que qualquer político, da esquerda à direita, subscreve, mesmo que não as pratique. Nesta aula de ética, o Presidente alertou ainda para os perigos da promiscuidade entre os poderes político e económico. E ficou-se por aqui.

Pelo não-dito, o discurso de Marcelo foi de apoio ao Governo de António Costa e, nesta medida, estreitou ainda mais a margem de manobra da oposição, em especial de Passos Coelho. O Presidente não dá a mão ao primeiro-ministro inocentemente. E até o veto político à lei do sigilo bancário pode ser interpretado como uma forma de ajudar Costa a refrear os ímpetos do Bloco de Esquerda. A realidade, vista por Marcelo, é a de que Portugal continua na mira dos falcões de Bruxelas, é preciso fechar o ano com um défice na ordem dos 2,5% e preparar o Orçamento de 2017, para dar sinais de tranquilidade aos investidores e aos mercados.

Por outro lado, o Presidente parece considerar que a oposição à geringonça ainda precisa de ser regenerada, pelo que não quer correr quaisquer riscos de poder ser apontado como o agente desestabilizador.

No seu discurso de sete minutos, Marcelo rescreveu a frase "com um simples vestido preto nunca me comprometo", celebrizada pelas personagens Olívia Patroa e Olívia Costureira, interpretadas por Ivone Silva.

"Com um simples discurso destes nunca me comprometo", terá pensado Marcelo depois de escrever o bonito discurso que leu ontem. E nisso tem toda a razão. Redondo mais redondo não há. 

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