Raul Vaz
Raul Vaz 20 de janeiro de 2017 às 00:01

Optimismo irritante? Ou paz podre?

Pedro Passos Coelho colocou-se do lado errado na questão da TSU – ao lado da esquerda, contra os patrões e contra um acordo de concertação social que evitou uma subida unilateral do salário mínimo – mas há um ganho político que já ninguém lhe tira. Provou, aos que tinham dúvidas, que a maioria "estável e duradoura" apregoada por António Costa não é estável e arrisca-se a não ser duradoura.
A talentosa habilidade política do primeiro-ministro ajuda a gerir dificuldades, mas não faz milagres. E as divisões programáticas à esquerda são mais evidentes.

Primeiro sinal de alarme: António Costa sabia que os parceiros que o sustentam eram contra o acordo que celebrou na concertação social. Mas avançou, apesar disso. Deu de barato que o PSD estava obrigado a salvá-lo. E o optimismo irritante do primeiro-ministro (há muito diagnosticado pelo Presidente da República) descambou em sobranceria. Nem pensou perder tempo com o líder do PSD.

Passos Coelho, que há um ano remói o estatuto de vencedor sem poder, cheirou a oportunidade, trocou o fato de ex-primeiro-ministro pelo de líder da oposição e partiu para a guerra. Não salvará Costa. E o Governo, que aprovou a baixa da TSU num Conselho de Ministros electrónico (!), sinal de que nem dentro de casa a questão é consensual, ficou às aranhas para tentar encontrar um plano B.

É previsível que o encontrem, mas os sinais de alarme ecoaram. Enquanto se tratou de reverter os cortes que a direita impôs para gerir um resgate, PS, Bloco e PCP entenderam-se. Mas o tempo das facilidades vai-se esgotando e se tentarmos vislumbrar nesta maioria um programa político coerente, seja de reformas, seja de rumo estratégico, sobretudo nas políticas sociais, temos dificuldade em encontrá-lo.

O ministro da Saúde tenta disfarçar o que já decidiu – vai manter as PPP no sector – apenas para amaciar o choque à esquerda. E não será o único caso de desfasamento entre a agenda socialista e as cartilhas bloquista e comunista. O que os une é gelatina. O poder consegue transformar gelatina em argamassa. Mas a realidade vem com o vento e o que hoje se vive é mais consentâneo com uma paz podre do que com um estado de estabilidade política.

Jerónimo de Sousa, que não é de rodriguinhos, já tinha avisado que "o caminho é cada vez mais estreito". E Francisco Assis, a voz do PS que nunca acreditou na geringonça, veio repor na agenda a hipótese de eleições antecipadas. Com autárquicas daqui a oito meses, ninguém as quer. Mas é sintomático que o tema tenha voltado.

Neste contexto, Passos Coelho ganhou fôlego e mobilizou o partido. Para já, para o combate autárquico. Depois, é uma incógnita, para o PSD e para o PS. Episódios como o da TSU fazem mossa entre os socialistas e vão minando as relações de António Costa com Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Devagarinho, é certo, e com a cobertura de Marcelo Rebelo de Sousa, que não quer ouvir falar de crises políticas. Mas as coisas são o que são. O arranjinho das esquerdas já foi mais arranjinho. 
A sua opinião21
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado surpreso 20.01.2017

A censura passou por aqui ,ó Vaz .Servindo o chefe?

comentários mais recentes
Rui Alegria 23.01.2017

Oh Sr. Raul Vaz acha bem que a Segurança Social tenha que contribuir para pagar os vencimentos dos trabalhadores por conta de outrem? Quando da divisão dos lucros também contam connosco?Sim que o dinheiro da S. Social é dos trabalhadores.

Anónimo 21.01.2017

DESTA VEZ NÃO ESTOU DE ACORDO COM RAUL VAZ PQ NÃO PODEMOS ESQUECER QUE O ACORDO GERINGONÇAL NÃO SE PODERÁ CONFUNDIR COM UMA COLIGAÇÃO PURA E DURA LOGO É NATURAL E AINDA BEM QUE HAJA DISCORDÂNCIAS ATÉ PORQUE OS PROGRAMAS SÃO OBVIAMENTE DIERENTES E SÓ ACORDARAM NO QUE É MAIS IMPORTANTE SEM SE FERIREM.

Luís Tavira 21.01.2017

Este é o editorial de um jornal de negócios? O jornal tem alguma posição política / declaração de interesse ou similar? O autor é um político convidado a escrever um edital? Leu o que escreveu antes de publicar? Ora abóbora!

Henry Ford: qq cor desde q seja preto... 21.01.2017

Tudo certo, mas aquilo não foi um acordo. O PS disse qual era o valor do salário mínimo. Os patrões não concordaram. O PS que gere o nosso dinheiro, resolveu compensar os patrões , subsidiando á nossa custa esse aumento do salário. Porque é que o PSD tinha que validar este"arranjo" eleitoralista?

ver mais comentários
pub