André  Veríssimo
André Veríssimo 17 de dezembro de 2017 às 23:00

Os pés de barro de Isabel dos Santos

É evidente que Isabel dos Santos construiu um império empresarial à sombra do Estado, aproveitando-se do facto de ser filha de quem é. Não era evidente que sentando-se João Lourenço na cadeira do pai ela e os seus interesses deixariam de ser intocáveis. Afinal, levanta-se o véu. 

O poder mudou mesmo em Angola. É cedo para saber se para melhor. Mas a mudança é evidente no cerco aos interesses do clã dos Santos, no seu afastamento de posições-chave e na informação que circula com indícios sobre corrupção e enriquecimento à custa do Estado. Isabel dos Santos não foi a única, mas o poder que tem (ou será tinha?) coloca-a na mira.

Em Angola, é a sua passagem pela Sonangol que tem feito correr tinta. Entrou para sanear e reestruturar a petrolífera angolana, a que João Lourenço já chamou a "galinha dos ovos de ouro" do país. Mas, noticia o Expresso citando fontes do Governo, terá desviado milhões em fundos da Sonangol para contas das suas próprias empresas.


Isabel dos Santos defende-se, diz que uma das empresas fazia parte do consórcio para a restruturação da Sonangol e que o dinheiro saiu para pagar facturas relacionadas com o projecto.


A guerra e as suspeitas de desvios de fundos estendem-se a Portugal. O Público noticiou este domingo que foi com mais de 300 milhões da Unitel, empresa onde Isabel dos Santos tem 25% do capital e que lidera, que a filha de José Eduardo dos Santos se tornou accionista da Zon e depois parceira do grupo Sonae no controlo da Nos. A empresa angolana não esclarece se os financiamentos foram saldados, mas garante que é tudo legal e auditado pela PwC.

Era Isabel dos Santos (ainda que não sozinha) que assinava os empréstimos que recebia. O que pensar de uma gestão que aprova para si própria um financiamento que chega aos 360 milhões? A Oi, que "herdou" a posição de 25% da PT na Unitel, não tem dúvidas que os financiamentos são "irregulares".


Depois há o antecedente dos dividendos da Unitel, pagos aos accionistas angolanos e não aos portugueses. Dinheiro que é agora da Oi, mas que esta se vê forçada a reclamar através de um processo arbitral na Câmara de Comércio Internacional de Paris.

Com a crise, o dinheiro angolano viu uma oportunidade. Era o capital que havia (a par do chinês), quem precisava convidou-o a entrar. Os riscos reputacionais sempre lá estiveram: a péssima posição de Angola nos rankings de corrupção, a ausência de um "governance" que desse o mínimo de garantias.


Agora isso representa uma fragilidade para as próprias empresas. A Efacec tem o importante mercado angolano em risco. A Nos, embora por um motivo diferente, tem como accionista de referência alguém que é visado num processo internacional e carrega um legado crescente de suspeitas. Os pés de barro de
Isabel dos Santos são-no também para as empresas onde investe.
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