Tiago Freire
Tiago Freire 22 de dezembro de 2016 às 00:01

Para que serve o inquérito à Caixa?

A comissão parlamentar de inquérito ao caso BES foi justamente elogiada por todos e teve o condão de reabilitar publicamente a imagem destas iniciativas. Mas quem pensou que algo de fundamental tinha mudado a partir daí só pode ficar desiludido com o rumo da comissão em curso, sobre a Caixa Geral de Depósitos.
Da previsão original de 120 dias de duração dos trabalhos, quando a comissão foi criada, já passaram uns longos cinco meses. Tivemos pelo meio as férias de Verão e depois a azáfama do Orçamento do Estado, que consumiu naturalmente a atenção e as energias dos deputados, levando à interrupção formal da contagem de tempo do inquérito. Descontando esse ‘time-out’, passaram mais de 90 dias dos 120 inicialmente previstos. E o problema não é tanto o tempo, até porque a comissão pode aumentar o seu calendário por mais 60 dias. É o pouco sumo espremido, a muito custo, até agora.

Depois da retoma da comissão, assistimos em suspenso a emocionantes depoimentos de Guilherme D’Oliveira Martins, Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite. Que acrescentaram, como esperado, um grande zero a qualquer coisa que se quisesse descobrir, e que ainda ninguém percebeu o que é. Foram chamados na qualidade de antigos ministros das Finanças - com a tutela da Caixa - naquele exercício pueril a que os deputados já nos habituaram: se chamas o meu ministro eu chamo o teu, e assim chamamos todos.

Os deputados da comissão não são maus nem são incompetentes. A explicação é outra: o inquérito parlamentar à Caixa não vai dar nada por os deputados não conseguirem chegar às verdades, mas sim porque eles não querem efectivamente chegar a essas verdades.

Porque são, parafraseando Al Gore, verdades inconvenientes para os partidos do chamado arco da governação. Uns, mais do que outros, trataram a Caixa como instrumento de poder político, seja na colocação de pessoas seja na influência sobre negócios públicos e privados. PS, PSD e PS não se podem dar ao luxo de fazer em público uma "lavagem de roupa suja" deste tipo, mas que ajudaria a perceber as opções que foram enfraquecendo o banco público. E os parceiros da geringonça - habitualmente tão acutilantes neste tema - estão também limitados: não podem atacar o PS com a ânsia do costume e não querem contribuir para a demonstração dos perigos que a má gestão pública pode ter.

O inquérito arrasta-se porque há muitos interesses para que tal aconteça. Simples. 

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comentários mais recentes
JCG Há 4 semanas

Uma coisa que podiam averiguar é porque razão a CGD, depois de em 2014 ter apresentado prejuizos de mais de mil milhões de eurso, em 2015 gastou em média com cada um dos 8400 trabalhadores (só no país) cerca de 70,2 mil euros, quando os cinco maiores bancos a seguir (sem o NB) gastaram em média 47,7 mil euros.

Mr.Tuga Há 4 semanas

As famosas "comichões" de tugalândia dos atrasaditos, para entreter a rapaziada lá da casa de pu*as que é a AR...

Rogerio Varela Há 4 semanas

Uma auditoria externa ,é que não querem.

Anónimo Há 4 semanas

Concordo a 100% com o autor,

Somos nós, os contribuintes, que vamos pagar os roubos e desmandos dos boys colocados na CGD pelo PSD, PS e CDS.

Por incrível que pareça, o BE e o PCP também estão na panelinha, não querem que se saiba nada sobre esses roubos e desmandos! Porque então ficava a nu que a gestão dum banco público pode ser do piorio possível, como foi o caso!

Privatize-se a CGD, mas a vários estrangeiros sérios (angolanos nem pensar) sem nenhum ficar com poder absoluto.

Centros de decisão nacionais, privados ou públicos? Pois, à conta da exploração do Zé Povinho contribuinte ou consumidor ...

É só xulos neste país!

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