Helena Garrido
Helena Garrido 15 de Julho de 2012 às 23:30

Porque todos têm de pagar a crise

O que se receava está a acontecer. Vamos de férias com os primeiros sinais de desentendimento entre os partidos da coligação governamental e os primeiros alertas de quebra da coesão social.
O CDS quer a função pública a pagar a factura da indisciplina financeira de um país inteiro. A população em geral escandaliza-se com os sucessivos casos Relvas, num governo que ainda não parou de pedir sacrifícios.

A economia e as finanças do país estão melhores mas os portugueses começam a atingir o limite da sua resistência. Se o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e o líder do CDS/PP e ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas não perceberem, por razões diferentes, o estado de cristal em que a sociedade portuguesa está, enfrentamos um sério risco de tudo perder.

Há sempre uma gota que faz transbordar o copo e destrói toda a compreensão até agora revelada com as medidas, necessárias, de austeridade. E essa gota tanto pode ser mais um caso Relvas como o CDS considerar que o sector privado tem de estar protegido dos sacrifícios que se pedem ao país.

"Não se pode pretender que o sector privado tem, no problema do défice, a mesma responsabilidade que o Estado". A afirmação é de Paulo Portas, dia 13 de Julho, na Madeira. E disse-o referindo-se às soluções possíveis para se resolver o problema criado com a decisão de inconstitucionalidade da suspensão do subsídio de férias e de Natal da função pública.

Mas porque é que o sector privado não é tão responsável pelo que se passou no país como o sector público? O que Portas diz é até contraditório com aquela que é suposta ser a posição abstracta do CDS – evitando-se aqui, propositadamente, a palavra ideologia. O CDS gosta de sublinhar, no que só pode ser apoiado, que somos, todos, uma nação. E já o sabemos há algum tempo – nem que seja pelas divergências na Grécia - que uma das condições necessárias para resolver o complexo problema que enfrentamos é a coesão social, é actuarmos como um colectivo que se sacrifica solidariamente. Como o tem afirmado o ministro das Finanças, só em conjunto conseguiremos ultrapassar a situação em que estamos.

Quando Paulo Portas considera, implicitamente, que são os funcionários públicos que devem pagar a factura dos excessos cometidos pelo país está a dividir em vez de unir. E fundamenta a sua opção num apuramento incorrecto quer das responsabilidades como das vantagens de cada grupo.

Contrariamente ao que possa parecer o sector público tem hoje muito menos vantagens do que tinha. Perderam muitas das suas vantagens neste processo de pagar a factura da crise. E os benefícios que ainda têm podem ser considerados como uma compensação por terem salários mais baixos. Sim, salários mais baixos, e não mais altos como diz Paulo Portas. Um quadro superior no Estado ganha menos que no sector privado – e Paulo Portas sabe isso. E há quadros no sector público que o privado não tem porque não precisa. É por isso que quando se comparam salários médios entre privado e público é preciso considerar que a qualificação média da função pública é superior – é no Estado que estão concentrados os professores, médicos, juízes. Compare-se os salários só dos quadros superiores do sector privado com o que se pratica no sector público e veremos como a função pública está mal paga. É nas profissões menos qualificadas que o Estado paga bem, não nas qualificadas.

Quanto às responsabilidades pela situação financeira em que o país está, vale a pena dizer que o funcionário público anónimo tem tanta responsabilidade como o trabalhador privado. Todos reagiram a incentivos das políticas económicas e beneficiaram com a indisciplina financeira que foi regra em Portugal e na Europa durante a última década.

Colocar portugueses contra portugueses na difícil situação em que o país se encontra é uma péssima ideia. Temos, todos, de perder um dos catorze meses de salário, chame-se ele imposto ou corte salarial? Vamos a isso. Desde que sirva para resolver o problema e o Governo tenha a coragem para enfrentar também quem é mais forte e governar com respeito pela ética e a moral.
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comentários mais recentes
M.Coutok 18.07.2012

Quando se escreve assim, esta a esquecer ou nunca viu um recibo de salario de um trabalhador do sector privado, ha uma distancia que até doi, mas pode ser que tambem o sector publico passe a ter peias semelhantes, aí vamos ver como serão os protestos, senão basta olhar o que fiseram os enfermeiros e ou medicos.aí se todos tivessem literacia para perceber isto, seria o fim desta macacada toda.

M. Carrmo 17.07.2012

Não são os "...sinais de desentendimentos entre os partdos da coligaão..."que me preocupam, mas sim a falta de entendimento, em todas as matérias (inclusivé na constituconal) entre os partidos do chamado "arco do poder". Infelizmente, tal entendimento virá a acontecer, quando não houver fundos para pagar salários e pensões! Veremos então.Também vai tocar a todos eles.

Nuno 17.07.2012

nunca tive promoções automaticas e por idade, nunca tive nenhum subsistema de saude que me apoiasse, nunca auferi ajudas de custo, nunca trabalhei com horários reduzidos, nunca tomei decisões politicas beneficiando cegamente os coitadinhos que não querem trabalhar...trabalho numa empresa privada que vive e viveu com dificuldades para pagar os impostos ao estado e os ordenados aos empregados...nunca vivi acima das minhas possibilidades, porque é que eu tenho que pagar a crise. Que trampa de justiça é esta?

VANUYS 17.07.2012

Só existe Estado, se houver uma economia que o suporte. Como não há, então paciência ... E garanto que sou a última pessoa deste país a apoiar afirmações do Paulo Portas ...

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