Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro 05 de julho de 2018 às 23:00

Poupar não está fácil

Os dados do Eurostat mostram que o nível de poupança dos portugueses é metade do registado na Europa (onde as taxas de juro dos bancos também estão perto de zero). E um estudo do BBVA indica que os portugueses estão mais preocupados em poupar para viagens do que para a reforma.

Há cada vez mais portugueses a investir em títulos de dívida emitidos pelo Estado e o Tesouro português continua a aproveitar a falta de alternativas que os aforradores têm para aplicar as suas poupanças. A sétima emissão de OTRV arrancou esta semana e é quase certo que, tal como nas emissões anteriores, a procura irá superar a oferta, levando o IGCP a optar por aumentar o valor da operação além dos 500 milhões de euros previstos.

Mas o sucesso antecipado da emissão não é explicado pelos melhores motivos. Poupar não está fácil e é sobretudo a falta de alternativas que justifica a escolha dos aforradores por estes produtos de poupança do Estado. Com as taxas dos tradicionais depósitos bancários perto de zero, é natural que uma remuneração bruta de 1% pareça atractiva. O problema é que os bancos cobram avultadas comissões pela subscrição destes produtos do Estado. Tal como o Negócios mostra na edição desta sexta-feira, quem investir 7 mil euros arrisca perder dinheiro e mesmo para aplicações de maior dimensão a taxa líquida será apenas de escassas décimas.

Uma das funções do Estado passa por obter financiamento ao custo mais baixo possível. E por isso faz todo o sentido que o IGCP opte por pagar o menos possível para colocar as OTRV. Se a procura é elevada e a garantia de colocação quase certa, pode compreender-se a taxa de juro de 1% (a mais baixa de sempre). Mas comparando com as outras formas de financiamento do Estado, a taxa de remuneração das OTRV já é mais difícil de justificar. Na emissão de obrigações do Tesouro a 10 anos que colocou em meados do mês passado junto de investidores institucionais, o IGCP aceitou pagar 1,92%. Os títulos de dívida pública que são transaccionados no mercado secundário estão actualmente com uma taxa de 1,27% no prazo a sete anos (a maturidade das OTRV que estão a ser agora emitidas).

É verdade que os contribuintes não devem ser chamados a pagar mais impostos para financiar a rendibilidade adicional que é paga aos aforradores. Mas já que há um apetite tão elevado pelos produtos do Estado, era bom que o mesmo Estado aproveitasse o momento para incentivar os portugueses a aumentar os níveis de poupança.

É que se é positivo o Tesouro financiar-se ao menor custo possível, são cada vez mais preocupantes as notícias sobre como estão a evoluir as poupanças dos portugueses. Os dados do Eurostat mostram que o nível de poupança dos portugueses é metade do registado na Europa (onde as taxas de juro dos bancos também estão perto de zero). E um estudo do BBVA indica que os portugueses estão mais preocupados em poupar para viagens do que para a reforma. E o passado já nos mostrou quais são os custos de quando as famílias deixam de poupar para aumentar os níveis de consumo, sobretudo com recurso a crédito. 
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