André  Veríssimo
André Veríssimo 30 de outubro de 2017 às 23:00

Poupar, pelo futuro

Já tivemos um primeiro-ministro a queixar-se de que os portugueses poupavam demasiado. Agora, concorda a maioria dos economistas, pecamos por defeito. Há boas razões para pouparmos tão pouco, mas são de peso as razões porque devíamos fazê-lo mais.

As famílias portuguesas poupam 1 em cada 20 euros que ganham, uma das mais baixas percentagens da Zona Euro. O facto de o país continuar a ser um dos que têm menor rendimento per capita explica quase tudo: há muitos que não amealham porque não podem. Não explica tudo.

Da última vez que assistimos a um incremento da taxa de poupança o país podia ainda menos. Aconteceu com a recessão de 2009 e novamente depois do resgate financeiro (foi quando Passos Coelho se queixou). O optimismo muda a figura do caso.

Como salienta o economista Fernando Alexandre num dos textos da edição especial do Investidor Privado que o Negócios publica esta terça-feira para assinalar o Dia Mundial da Poupança, o baixo aforro actual pode significar que os portugueses "acreditam que o seu rendimento vai aumentar no futuro".


A recuperação económica é um desincentivo à poupança. Outros há, poderosos. A política monetária que o BCE vem pondo em prática há vários anos, que baixou até ao irrisório os juros dos depósitos, destina-se justamente a pôr-nos todos a gastar.


A isto há que somar a dose de desconfiança em relação aos produtos da banca que se instalou na esteira dos casos BES e Banif. A baixa literacia financeira também não ajuda, pese embora o esforço meritório que tem sido realizado pelos reguladores para a melhorar, uma obra para gerações.


Os governos também têm culpa no cartório. A carga fiscal sobre os rendimentos de capital é um entrave. Chegou a aventar-se novo agravamento no Orçamento do Estado de 2018 por pressão do Bloco, que parece ter ficado pelo caminho. Veremos se ressuscita na discussão na especialidade. Os incentivos que existiam, por exemplo nos PPR, estão reduzidos ao mínimo.

Há duas evoluções positivas que vale a pena sublinhar. A poupança das empresas está a crescer, contribuindo para a desalavancagem da economia. O peso do aforro interno no financiamento do Estado tem vindo a aumentar, diminuindo a dependência do exterior. Mas o problema estrutural mantém-se.

A economia não cresce sem investimento e é a poupança que permite financiar o investimento futuro. Sem ela, resta-nos o crédito externo, que Portugal tem em demasia. A baixa poupança é também uma armadilha para as famílias num país onde a evolução demográfica joga contra elas.

Não tem a gravidade da floresta, mas a poupança em Portugal também carece de uma intervenção de fundo
Saber mais e Alertas
pub