André  Veríssimo
André Veríssimo 18 de janeiro de 2017 às 00:01

Quando a geringonça avaria

Passos Coelho decidiu que era hora de mostrar ao país a vulnerabilidade do acordo parlamentar que suporta o Governo. E conseguiu-o, mesmo que para isso tenha sacrificado capital de credibilidade.
Não há volta a dar. Se há alguém responsável pela forma como o processo foi conduzido, é o Governo. Vieira da Silva anunciou um acordo de concertação social para a subida do salário mínimo sem garantir a viabilidade da sua aprovação legislativa, como era sua responsabilidade política. O ministro da Segurança Social sabia que o acordo dependia de uma redução da TSU que PCP (já o fizera em 2016) e Bloco chumbariam no Parlamento. Fiou-se no PSD. Deu-se mal.

Passos Coelho cansou-se de ser "muleta" – expressão do próprio – e anunciou que votaria ao lado do Bloco e do PCP. O líder do PSD pode dizer que, quando aprovou o mesmo expediente em 2014, o fez por ser uma medida excepcional. O argumento, mesmo válido, não apaga a imagem de que o partido que sempre defendeu a baixa da TSU, e sempre se pôs ao lado da concertação social, de repente virou o bico ao prego. A circunstância de o partido que está normalmente com os patrões os ter agora contra ele é isso que nos diz.

Passos Coelho achou que era o momento de mostrar as garras, de dar uma prova de vida, expondo a fragilidade do apoio parlamentar do Governo. E mesmo com o brilharete do "défice que não será superior a 2,3%" (que é uma vitória), o debate quinzenal de ontem foi seguramente um dos que pior correram a António Costa. Curiosamente, foi Assunção Cristas quem melhor tirou partido da fragilidade criada pelo pré-anunciado chumbo do PSD.

Terá Passos Coelho decidido mal o momento para deixar de ser muleta? Outra pergunta: até onde iria a redução da TSU para viabilizar um acordo para um salário mínimo de 600 euros? E ainda outra: faz sentido viabilizar uma descida da TSU apenas para as empresas que pagam salários mínimos, ou essa deve ser uma medida transversal?

A forma apressada como Governo e Presidente aprovaram e promulgaram o diploma da TSU, em menos de 24 horas, é sinal de desespero. Tal como o é a assinatura do acordo de concertação pelo Executivo e pelos parceiros sociais em separado e em modo "correio expresso", sem a habitual cerimónia no Conselho Económico e Social. Ratificando, sublinhe-se, uma contrapartida pelo aumento do salário mínimo que é, até ver, politicamente inviável. Digamos que não abona a favor da imagem da concertação.

O que fica disto? Uma lição para o Governo de que o entendimento parlamentar tem de ser procurado também à direita, aceitando o que isso implica. Uma maior incerteza sobre as opções políticas do PSD. Um acordo com os parceiros sociais que está ferido, mas não morto – o plano B de que António Costa agora não fala virá à luz dia. Uma geringonça que está para durar, mas que quando avaria deixa o primeiro-ministro vulnerável. E haverá outros testes. 
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mais votado surpreso 17.01.2017

Vocês ,deste pasquim,não têm pudor.Passos Coelho é que está por detrás das divergências deste "esquerdalho"?

comentários mais recentes
Anónimo 18.01.2017

No debate o Passaroco foi mais uma vez ridículo e a regateira da Cristas deixa-nos desencantados. A oposição faz uma triste figura catita.

hilário 18.01.2017

Avaria ou desafinação? O PS é muito diferente do PC e do BE. Seria de esperar que estivessem sempre de acordo com tudo? Seria. E por quê? Por nunca antes tivemos democracia representaiva a sério. Pela primeira vez temos verdadeira política, com ideias diferentes a negociarem uma governação.

Walter Pepino 18.01.2017

Mais um que ainda de fraldas , e já manda bitaites.!!???****

Mr.Tuga 18.01.2017

Certo!

Passos foi coerente...

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