Celso  Filipe
Celso Filipe 11 de julho de 2017 às 00:01

Quando é bom pisar a terra

O Governo está a navegar por mares tumultuosos. A demissão de três secretários de Estado, a fragilidade de dois ministros decorrente da tragédia de Pedrógão Grande e do roubo de Tancos e a celeuma etérea em torno das cativações foram os elementos que desencadearam a tempestade num mar que era chão.
Estas circunstâncias dão fôlego à oposição e isso é da natureza das coisas. De igual forma, os mesmos acontecimentos reforçam ainda mais o poder de Marcelo Rebelo de Sousa, na inversa proporção em que fragilizam o primeiro-ministro. António Costa fica assim mais dependente do braço amigo do Presidente da República.

António Costa resiste a não demitir os seus ministros Constança Urbano de Sousa e Azeredo Lopes, para não dar um sinal de fraqueza. Comete um erro, pela simples razão de que não há um governo forte com ministros fracos. Substituir os secretários de Estado por outros, ignorando tudo o resto, pode ser uma razoável estratégia política de curto prazo, mas é ignorar a turbulência. O barco vai continuar a meter água por aqueles dois ministérios, fragilizados e expostos às críticas, por todas as razões possíveis e até por algumas imaginárias. A natureza da política é assim.

Esta turbulência está longe de ser o naufrágio do Governo. Alguém acredita que António Costa irá cair por causa destes factos? Até a oposição, que o deseja, não embarca certamente na fantasia. A prova dos nove poderá ser uma moção de censura, a apresentar pelo PSD ou CDS, mas algum destes partidos será capaz de tomar essa iniciativa, correndo quase certo de ver chumbada no Parlamento?

O actual quadro obriga o irritante optimista António Costa a descer à terra. Dá-lhe a real dimensão de vulnerabilidades que ele tinha vindo a desvalorizar, à boleia de sondagens muito favoráveis. O Bloco de Esquerda e o PCP voltam a ganhar relevância enquanto aliados do Governo e sobretudo no que se refere aos termos das negociações para o Orçamento do próximo ano. A oposição, por seu turno, pisa terra firme para fazer o combate político ao Governo. E as eleições autárquicas de Outubro pintam-se com novas cores.

António Costa pode considerar que é um acto de fraqueza fazer uma remodelação a reboque das críticas. Pode até ter razão. Mas não o fazer é muito pior. É um sinal de arrogância, quando o que agora se pede ao primeiro-ministro é um exercício de humildade. Costa precisa de voltar a terra para reparar o barco e poder de novo partir. 
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comentários mais recentes
Anónimo 11.07.2017

Senhores jornalistas façam o favor de comparar esta situação de "crise" governativa com a situação criada pelo Dr. Paulo Portas em 2013. Basta comparar o comportamento da bolsa Portuguesa e dos juros da dívida para se perceber que esta "crise" é um episódio de silly season...

Anónimo 11.07.2017

Moção de censura apresentada pelo PSD ou CDS? Nem pensar. Imagine que a moção é aprovada. O que é que viria de seguida? Muito provavelmente uma maioria reforçada do PS ou mesmo maioria absoluta.