Celso  Filipe
Celso Filipe 03 de Outubro de 2016 às 00:01

Sánchez, mártir por conta própria

Pedro Sánchez foi afastado da liderança do PSOE por se recusar a viabilizar um Governo do PP, abstendo-se no Parlamento. Na hora do adeus, Sánchez justificou-se: "os meus pais ensinaram-me que o mais importante é manter a palavra dada". E a palavra dada tinha sido a de votar contra um Governo de Mariano Rajoy.

Na Calle Ferraz, em Madrid, sede dos socialistas espanhóis, os dirigentes decidiram no sábado o afastamento de Sánchez. Na rua, os militantes manifestaram-se, uns a favor, outros contra Sánchez, começando a pintar cenário da desagregação que se vai acentuar.

Este desfecho traduz-se numa vitória dupla para o PP. Primeiro porque garante a viabilização de um Executivo de Rajoy e depois, porque vai assistir de bancada a uma crise prolongada no PSOE. A ferida agora aberta nos socialistas espanhóis vai demorar muito tempo a sarar e pode até criar cisões comprometedoras para o futuro do partido.

Sanchéz sonhou em montar uma geringonça que lhe permitisse chegar ao poder, à imagem e semelhança da portuguesa, com o Ciudadanos e o Podemos, mas não conseguiu. E depois cometeu um erro grave, confundiu a sua palavra dada com os interesses do partido.

A irredutibilidade de Sánchez é compreensível à luz da ética, mas um partido não é um clube de ética, é um sistema de representação de um conjunto de pessoas que se revêem ideologicamente nesse mesmo partido.

Para conciliar os dois pressupostos, o agora ex-líder do PSOE devia ter-se  demitido, criando condições para uma regeneração do partido que sob a sua liderança foi perdendo de forma continuada eleitores, tanto nas duas eleições legislativas como nas regionais, como por exemplo a da Galiza. Ou seja, por esta via, os eleitores sinalizaram de forma óbvia o  seu descontentamento em relação ao  caminho por ele seguido.

Sánchez, encurralado pela sua palavra dada, devia ter saído pelo seu pé do cargo de secretário-geral do PSOE. Não o fez e adoptou uma atitude narcisista, preferindo transformar-se num mártir efémero. Ao invés, o PSOE terá um calvário prolongado, porque Sánchez, num determinado ponto, se julgou acima do partido que era suposto representar.

A sua teimosia desembocou numa radicalização interna do partido, da qual só beneficiam terceiros, do Podemos ao PP. E Rajoy, ganhou, inesperadamente, um novo fôlego político.

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comentários mais recentes
Francisco António 05.10.2016

Sanchez mostrou ter os tim tins no sítio !

"...UM PARTIDO NÃO É UM CLUBE DE ÉTICA..." 03.10.2016

"...UM PARTIDO NÃO É UM CLUBE DE ÉTICA..." escreveu CELSO FILIPE, retornado da direita e membro da direcção do Negócios.
Acrescenta várias críticas a PEDRO SÁNCHEZ, devido ao facto de este ter mantido a sua palavra de que o PSOE não viabilizaria um governo com o PP.
O seu artigo define-o bem ...

Juca 03.10.2016

Será que o Costa é o Sanchez luso? Só que na lusolândia estamos a caminho da bancarrota.

Anónimo 03.10.2016

Pode ser que o PP perca a maioria...