André  Veríssimo
André Veríssimo 09 de outubro de 2017 às 23:00

Schäuble, as bolhas e o Orçamento

O que têm Wolfgang  Schäuble, o prémio Nobel da Economia, as "bolhas especulativas" e o próximo Orçamento do Estado em comum?

Antes de se despedir do Eurogrupo, o ministro das Finanças alemão deu uma entrevista ao Financial Times na qual alerta para o facto de o mundo estar alegremente a lançar achas para a fogueira da próxima crise financeira. Ora gente a falar de "bolhas" é o que não tem faltado, desde gurus dos mercados às mais respeitadas instituições internacionais como o FMI ou o BIS.

 

Dos primeiros podemos suspeitar: quererão acicatar uma proveitosa volatilidade nos preços dos activos? Buscam a fama como "aqueles que tiveram razão antes do tempo"? Mas há algo que os une e às organizações internacionais, que é a mesma preocupação de fundo: o aumento galopante do endividamento mundial à boleia da política monetária expansionista.

 

O Institute of International Finance faz periodicamente as contas e diz que no início deste ano a dívida mundial atingiu um recorde de 217 biliões de dólares ou 327% do PIB. E isso é razão para alarme.

 

Como dizia Keynes, no longo prazo estamos todos mortos. Falar em "bolhas" tem esse conforto. Não se está necessariamente a dizer que há uma crise ao virar da esquina, apenas que se estão a reunir as condições para que ela venha a existir. Afinal de contas, a economia mundial até está a crescer ao ritmo mais elevado desde o início da década. Mas a questão não é se a crise virá, é quando a bolha rebenta.

 

Voltemos a Schäuble. "Não teremos sempre um contexto económico como temos agora. Temos de assegurar que seremos resilientes o suficiente se tivermos de enfrentar uma nova crise económica."

 

Agora que está de saída, Schäuble gosta de usar Portugal como a prova acabada de que a sua estratégia para lidar com a crise do euro estava certa. Fá-lo sabendo que a política actual não corresponde exactamente àquilo que defende. Desde logo porque, mesmo tendo ela alcançado com inegável sucesso os objectivos de consolidação orçamental, pouco tem feito por tornar o Estado e o país mais resistente ao rebentamento da próxima bolha.

 

No seu trabalho no domínio da economia comportamental, o último prémio Nobel da Economia debruça-se sobre as razões por que as pessoas cedem irracionalmente a tentações de curto prazo levando a que descurem, por exemplo, a poupança para a reforma. Não há mal em ter um orçamento expansionista como o que Portugal vai ter em 2018 quando a economia está a crescer. O problema está em fazê-lo como se houvesse petróleo no Terreiro do Paço, sem procurar a resiliência futura com uma reforma estrutural da despesa pública, contentando-se apenas com uma diminuição do seu peso no PIB. Infelizmente, a obra de Richard Thaler não é leitura de cabeceira deste Governo.

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Mr. Tuga - Mas então não são os seus partidos (PSD e CDS) que andam a reivindicar mais dinheiro para tudo o que é "sítio"?i

Anónimo Há 1 semana

Artigo de opinião muito esclarecedor. Bem-haja Sr. André Veríssimo

Mr.Tuga Há 1 semana

Finalmente um artigo sóbrio!

O ultimo paragrafo diz tudo dos DESPESISTAS CRIMINOSOS xuxas e geringonços!

5640533 Há 1 semana

Nem deste Governo nem dos aliados.

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