André  Veríssimo
André Veríssimo 21 de Dezembro de 2016 às 00:01

Ser popular com o pêlo do cão

O Governo está a tornar-se especialista no anúncio de medidas populares que "alguém" há-de pagar. O aumento do salário mínimo, a solução para os lesados do BES e os preços dos transportes são os últimos exemplos.
O caso do aumento do salário mínimo é paradigmático. Para conseguir o acordo dos patrões, o Governo prepara-se para dar novo desconto na Taxa Social Única (TSU) que é suportada pelas empresas, aumentando-o de 0,75 para um ponto percentual. Como explica a edição de hoje do Negócios, este bónus cobre, no mínimo, 15% do acréscimo que as empresas terão com a subida dos encargos salariais.

Se vigorarem as regras deste ano, há sociedades que podem até conseguir poupar com os aumentos. Isto é, o que ganham na TSU pode até ser superior ao que vão pagar a mais aos trabalhadores.

Em suma, o Governo sacrifica receita da Segurança Social, que é deficitária, para conseguir o acordo de todos os parceiros sociais. O custo fica para quem? Os contribuintes.

Faz lembrar aquelas operações em que o comprador faz a aquisição, pagando-a depois com o dinheiro da empresa que comprou. O proverbial "pagar com o pêlo do cão".

Novos preços dos transportes, mais engenharia. O tarifário aumenta 1,5% mas, garante o secretário de Estado, as famílias portuguesas vão pagar menos. Como? Em boa parte porque vão poder deduzir à colecta de IRS o IVA suportado nos passes. As empresas do sector recebem mais, o Fisco menos. Pagamos todos.

O princípio repete-se na solução engendrada para compensar, em parte, as perdas dos lesados do BES. Estes vão receber à cabeça 30% do que investiram em papel comercial, que corresponde à recuperação calculada para a massa falida do banco. Mas António Costa promete devolver entre 50% a 75%, numa soma que pode chegar aos 286 milhões de euros. De onde vem o resto do dinheiro? A informação que existe não é clara, porque o Executivo se tem furtado a dar explicações. Mas sabendo que o dinheiro não cai do céu, alguém terá de avançá-lo. Será o fundo de resolução, que é como quem diz todos os bancos do sistema financeiro português? Um fundo que, como assinala o Tribunal de Contas, já está hipotecado até 2046 com a resolução do BES e do Banif? E não haverá sempre uma garantia do Estado por trás, colocando, no fim da linha, outra vez os contribuintes?

Se o país puder, é importante que o salário mínimo suba, e que os transportes públicos sejam acessíveis para as famílias. O que não é sério é o Governo andar a anunciar alegremente medidas, que sabe serem populares, mas depois crie esquemas que criam opacidade sobre onde recaem os custos. 
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mais votado Anónimo Há 14 horas


CORTAR JÁ, NAS PENSÕES ATUAIS DOS LADRÕES FP / CGA

Os beneficiários da CGA não descontaram nem para metade da pensão que recebem.

O buraco anual de 4 600 milhões de €, da CGA, é sustentado pelos impostos cada vez mais altos suportados pelos trabalhadores e pensionistas do privado.

comentários mais recentes
JCG Há 10 horas

Eu chamo-lhe a cobrança de um imposto sobre a ignorância. Em que os partidos ditos de esquerda são todos especializados.
O que significa? em vez de se cobrar mais impostos aos que mais têm para reforçar insuficiências dos mais necessitados (Estado Social), cobram-se impostos mesmo aos mais necessitados (em Portugal toda a gente paga impostos) para arranjar dinheiro para depois distribuir de acordo com critérios de clientela partidária e eleitoral por gente que já tem níveis de vida acima da média e situações de previlégio, contando com o facto de que muitos dos mais pobres que pagam não têm noção de que estão a financiar outros indivíduos mais abastados ou pensam que é bom distribuir dinheiro (de forma irresponsável) porque assim pode ser que lhe caiba algum, ignorando quem assimpensa que os recursos são limitados. Um exemplo: o PCB e o BE conseguem o apoio dos portugueses mais pobres para ajudarem a manter previlégios de banqueiros e bancários, como no caso da CGD.

surpreso Há 10 horas

Calma,André,este é o governo da redacção do JN.Não gostam? Ainda vai ser pior."Socialismo" pagamos todos

MP Há 13 horas

Uma criaturinha escreveu há minutos q agora pagam todos...
Aquilo q não consegue atingir é q estão a ser criados impostos q serão pagos por contribuintes q NADA têm a ver com a despesa adicional criada!
Se a burrice pagasse imposto, este ser estaria endividado até ao fim dos seus dias.

Rado Há 14 horas

Utilizadores e não utilizadores pagam por igual. Beneficia a propaganda do ilusionista político António Costa.

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