Raul Vaz
Raul Vaz 12 de junho de 2017 às 00:01

Será Jerónimo capaz?

Sr. doutor…? "Não, não sou doutor." Sr. engenheiro? "Não sou engenheiro." Sr. arquitecto? "Também não, sou operário metalúrgico." Conta-se assim, mais doutor menos engenheiro, a entrada de Jerónimo de Sousa como deputado à Assembleia Constituinte.

O primeiro dia de registo dos constituintes, nos idos de 1975. No dia seguinte, Jerónimo voltou a ser tratado por doutor. Era assim Portugal. Ainda há deste Portugal.

Tenho por Jerónimo de Sousa admiração e respeito. Sempre o vi como homem íntegro nos princípios, coerente nos propósitos. O erro óbvio no modelo político que defende não o diminui, pelo contrário, afirma-o. Por isso, julgo que Jerónimo de Sousa não merece deixar a casa em que sempre lutou por princípios, valores e projectos vergado à honraria do "sim, sr. doutor".

Cada dia em que a geringonça se alimenta à pala dos comunistas é menos um dia na história do partido. Em cada debate em que António Costa faz de verbo-de-encher as dores de estômago do PCP, cresce a margem de Jerónimo engolir aquilo que sempre rejeitou numa vida de operário da política. Por muito que se procure entrar numa cabeça que odeia a direita, o friso parlamentar que Costa manieta começa a meter dó.

E de pouco ou nada valerá a Jerónimo de Sousa e aos seus deputados ameaçarem com sentimentos que procuram uma solução filosófica. Diz, disse no último debate parlamentar, o líder comunista: "A dialéctica tem este sentido. O que era verdade anteontem pode não ser verdade amanhã. O ambiente de esperança que se abriu com o novo quadro político precisa de ser mantido para que a dialéctica não se transforme num outro sentimento."

A este estado de alma, numa azia apimentada pelo contorcionismo do Bloco (a discussão gravitava pela educação que levou Catarina Martins a falar em "verbo-de-encher") responde, respondeu, António Costa assim: "Não é verbo-de-encher aquilo que estamos a fazer." Não é, de facto. O que o Governo está a fazer, e bem, preenche, e muitas vezes enche, os requisitos dos acordos firmados no contexto europeu. A nível político, económico e financeiro. Com as naturais consequências sociais.

É neste filme que Jerónimo de Sousa entrou. E de primeira figura no início da saga, sente-se, em cada sketch, um mero figurante instrumental. Ele e o partido que lidera, com uma história de oito décadas. A história de Catarina e do Bloco tem outra manha e outro guião. Jerónimo não só sente como entranha essa realidade. Por isso quer voltar a ser operário metalúrgico. Será capaz? E irá a tempo?

P.S.: António Costa não tem nada a opor. Pedro Santana Lopes procura a convicção que há-de vir. Virá. Assim foi no Centro Cultural de Belém, no Túnel do Marquês, está escrito na pedra que assim será no Montepio. A Santa Casa que ajuda os pobres vai dar uma mão aos ricos. Sim, porque há um muro que separa estes dois mundos. O Montepio estaria sempre safo. Habitam ali vários mundos que se querem muito.

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mais votado IS Há 1 semana

Como habitualmente li com muito interesse o artigo de Raul Vaz.

comentários mais recentes
IS Há 1 semana

Seria possível ao Director do Negócios mandar verificar os comentários feitos pelos "Anónimo" e/ou pessoas que no campo nome escrevem uma idiotice qualquer ou copiam os nomes dos(as) leitores(as) já existentes? Se há um registo no site Cofina e uma conta a ele associada o nome e/ou nick utilizado não pode nem deve ser copiado e há com certeza formas de impedir estas práticas profundamente reprováveis e o spam de alguns trolls propositadamente instalados no Jornal. Sob anonimato são maioritariamente leitores não registados iletrados histéricos e repetitivos profundamente ofensivos e provocadores para quem emite opinião neste espaço e para alguns colunistas como é o caso de Camilo Lourenço. Não é possível que o Jornal permita esta forma de liberdade de expressão sem limites, onde há pessoas a poder dizer o que acham que devem mas sem ter de responder pelas afirmações escritas que fazem no espaço público.

IS Há 1 semana

A estupidez sob a forma de comentário de mais um Anónimo [Leitor não registado] que para defender as suas convicções só fala em "cegos" e outros disparates.

IS Há 1 semana

Como habitualmente li com muito interesse o artigo de Raul Vaz.

komité Há 2 semanas

Atente-se aos ideais do comunismo!

Leiam!

Verão que o comunismo é uma ideologia que nunca se conseguiu afirmar e facilmente perceberão porquê.

Mas Leiam !

Vão concluir que não faz qualquer sentido a existencia do PCP em Portugal...

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