Celso  Filipe
Celso Filipe 19 de novembro de 2017 às 23:00

Sol a mais faz mal

A estratégia de António Costa tem passado por resolver um problema de cada vez, mas ensina a prudência que sol a mais faz mal. Ícaro que o diga

"O sol quando nasce é para todos". A imagem é usada pelo Sindicato Independente dos Médicos para exigir um tratamento igual ao que o Governo concedeu agora aos professores, o descongelamento das carreiras. Os polícias reclamam um tratamento igual, os militares e os juízes também.

Significa isto que António Costa conseguiu um armistício com os professores mas abriu uma série de novas frentes de batalhas, sendo que as corporações em causa ganham uma legitimidade acrescida nas reivindicações. É verdade que o acordo feito com os professores se materializa num processo faseado de descongelamentos e progressões na carreira, mas nem por isso irá deixar de significar um factor adicional de pressão sobre as contas públicas, o qual poderá aumentar substantivamente caso outras corporações obtenham resultados semelhantes.

O Governo cedeu aos professores, indubitavelmente pressionado pelos seus parceiros da geringonça, os quais apoiam as lutas dos sindicatos; e na dicotomia trabalhadores/patrões, por força da sua matriz ideológica, colocam-se sempre ao lado dos primeiros. E, "hélas", porque precisa do Orçamento para o próximo ano aprovado.

No seu fervor para aquietar a contestação social, o Governo parece ter-se esquecido das empresas que, afinal, são decisivas para manter uma dinâmica de recuperação da economia. António Saraiva, presidente da CIP, diz na Conversa Capital (uma entrevista conjunta entre o Negócios e a Antena 1), publicada nesta edição, que o Orçamento para o próximo ano é "decepcionante" e avisa que a subida de derrama estadual nos lucros superiores a 35 milhões de euros é inibidora de investimento.

Nesta fase, o Governo parece tentado a distribuir raios de sol por todas as corporações, despreocupando-se com as sombras que ainda pairam sobre Portugal. A começar pelo longo caminho que ainda está por fazer destinado a aumentar a competitividade empresarial (sem o qual não há crescimento da economia) e terminando na necessidade de acautelar a despesa pública, porque (como avisou o próprio ministro das Finanças, Mário Centeno) o ciclo de taxas de juro baixas está a acabar.

É verdade que, por necessidade e com resultados satisfatórios, a estratégia de António Costa tem passado por resolver um problema de cada vez, mas ensina a prudência que sol a mais faz mal. Ícaro que o diga.

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