Celso  Filipe
Celso Filipe 07 de Novembro de 2016 às 00:01

Trump já ganhou. A dobrar

Donald Trump pode até perder as eleições presidenciais norte-americanas, mas lamentavelmente já ganhou. A dobrar. Ganhou a nível pessoal e no plano dos valores que representa.

A nível pessoal ganhou porque a marca Trump sai valorizada deste embate político. O candidato republicano, aliás, conhece de há muito a importância da notoriedade pública. Tomou-lhe o gosto com o seu divórcio de Ivana, um festim para as publicações de bisbilhotice que ele foi alimentando com desvelo.


Foi graças a esse lastro que consolidou mediaticamente o seu apelido e conseguiu evitar a bancarrota, fazendo dele um activo que negociou com os credores.  Posteriormente foi o "reality show", "The Apprentice", que lhe conferiu uma aura de homem de negócios bem sucedido - o contrário da sua história enquanto empresário - quando no fundo a sua matriz é a de um vendedor exímio.


Para Trump, não existe boa uma má publicidade. O que importa é que falem dele. Por isso,  a sua natureza controversa garante-lhe com muita frequência um lugar no centro das atenções, um bem valioso, ao qual a sua candidatura presidencial oferecerá uma generosa longevidade e a respectiva rentabilidade financeira.


O outro plano, o dos valores que representa, é bem mais sinistro. Trump mente, é autoritário,  humilha minorias e joga com o medo para acicatar ódios. Pertence a uma linhagem que vem fazendo o seu percurso na Europa, com Le Pen em França e Putin na Rússia. Não por acaso, Trump é apoiado pela maioria dos órgãos de comunicação social que o apresentam como um lutador anti-sistema, sistema este que é protagonizado por Hillary Clinton.


Os valores que Trump representa ganharam adeptos, porque os políticos se distanciaram dos eleitores e se fizeram reféns de lóbis variados. A democracia tem vindo a tornar-se cada vez mais pobre e isso aumentou o distanciamento dos cidadãos, que se transformaram em meros espectadores desta realidade, abdicando progressivamente do seu poder reivindicativo. A popularidade de Trump é um alerta vermelho e um mal que só pode ser combatido com a regeneração do sistema político.


É por isso que o fenómeno Trump, mesmo derrotado nas urnas, não pode ser menosprezado e muito menos esquecido. Porque os valores que ele representa e arregimentam cada vez mais adeptos são um risco para a democracia. 

 
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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 dia

O Trump apoiado pela comunicação social? Não me façam rir, o homem que financiou a sua campanha enquanto que todos os outros receberam milhões dos lobbies e grupos económicos que controlam os meios de comunicação de massas, é esse que é beneficiado na opinião pública? Não me façam rir... Chorar...

Anónimo Há 1 dia

Lisboa precisa de Trumpistas para vender e investir e não de desincentivos aos investimentos interessantes.

Anónimo Há 1 dia

Trump é a personificação dos neo-liberais sr Francisco. É um neo-político inútil que vive dos impostos que os outros pagam e que ele NÂO paga.

Francisco Há 1 dia

Os EUA não são a França, nem a Russia, nem a Hungria. Estas comparações bacocas acabam por desvirtuar o assunto, que é factual: Trump é vaidoso. Mas muito mais útil ao 'mundo' do que os políticos que vivem dos impostos que ele paga.