André  Veríssimo
André Veríssimo 06 de dezembro de 2017 às 23:00

Trump, o incendiário

Donald Trump tem feito um esforço assinalável para instigar um clima global de conflito, desde a península da Coreia ao Médio Oriente. Ontem deu mais um passo significativo nesse desiderato ao reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.
A mudança efectiva da embaixada de Tel Aviv para a cidade que também é santa para o Islão poderá demorar anos, se chegar a acontecer. Mas o anúncio basta como grave afronta aos palestinianos e aos árabes em geral, contribuindo para acicatar a violência na região e fora dela. Constitui uma ameaça à própria segurança interna dos Estados Unidos.

Não na cabeça de Trump. Para o Presidente dos EUA este é um passo decisivo, que "chega com grande atraso", para resolver um conflito com quase 70 anos. Para os palestinianos é um "beijo da morte" no processo de paz.

Podíamos dar o benefício da dúvida e acreditar que Trump e a sua equipa crêem que dar um murro na mesa e exibir os bíceps é a melhor forma de iniciar uma negociação. Mas talvez faça mais sentido ficarmo-nos pela ideia, mais plausível, de que se trata de uma cedência ao poderoso lóbi judaico.

Como fez questão de salientar, esta é também a concretização de uma promessa de campanha. Não se pode acusá-lo de não ter avisado que o faria. Isso não invalida que se questione a falta de senso que é fazê-lo.

A decisão mostra, mais uma vez, o desprezo da nova administração norte-americana pelo multilateralismo ao anunciar uma medida que vem dificultar os esforços de paz que têm sido tentados internacionalmente. Ainda no início da semana, os EUA anunciaram que deixarão de integrar o Pacto Mundial das Nações Unidas para os Migrantes e Refugiados.

Trump tem vindo a enfraquecer os mecanismos internacionais criados para promover a paz no pós-Guerra, seja com palavras, seja financeiramente. Uma tendência que poderá agravar-se com a pressão que o seu choque fiscal irá provocar sobre o orçamento federal.

Não satisfeito, Trump vem também alimentando novas frentes de conflito. Colocou em marcha atrás o longo e difícil processo de normalização de relações com o Irão. Alimentou uma escalada de tensão na península da Coreia, sem resultados práticos na reversão do programa de mísseis balísticos de Pyongyang. Criar inimigos externos faz parte da sua estratégia de fortalecimento interno.

Como se temia, o mundo é um lugar mais perigoso desde que Donald Trump entrou na Casa Branca. E assim será enquanto dela não sair. 

pub