João Cândido da Silva
Um caso com mau aspecto
27 Maio 2012, 23:30 por João Cândido da Silva | joaosilva@negocios.pt
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Com uma boa dose de ingenuidade, pode acreditar-se que os serviços secretos portugueses existem para ajudar a garantir a segurança interna.
Com uma boa dose de ingenuidade, pode acreditar-se que os serviços secretos portugueses existem para ajudar a garantir a segurança interna. Os episódios que, nos tempos mais recentes, têm sido revelados apontam noutro sentido. Os serviços secretos e quem neles trabalha, ou trabalhou, parecem ser úteis, mas apenas para quem pode servir-se deles com o objectivo de satisfazer os seus interesses particulares.

De estruturas que lidam com informação sensível e que fornece muito poder a quem a ela tem acesso, espera-se que funcionem com o sentido das responsabilidades e o respeito pela legalidade que se impõem. Espera-se, também, que as escolhas sobre quem nelas trabalha ou quem nelas manda recaiam sobre profissionais diligentes e escrupulosos, capazes de continuarem a cultivar estas qualidades depois de cessarem a sua colaboração com os serviços em causa. E é legítima a expectativa de que a fiscalização seja eficaz e decidida quando se trata de detectar e corrigir desvios.

Sabia-se que espiões e ex-espiões tinham andado entretidos a investigar as chamadas telefónicas de um jornalista com o objectivo de obterem informação relevante para as suas guerras de poder internas. Também tinha sido revelado que a vida privada de um empresário foi vasculhada por motivos que nada têm a ver com razões de Estado. Estes dois casos já tinham mau aspecto mas, afinal, ainda não eram tudo o que havia de tenebroso por detrás da cortina.

Agora, foi a vez de se saber que os métodos aprendidos nas estruturas dos serviços de segurança foram aplicados na elaboração de um relatório sobre Francisco Pinto Balsemão. Objectivo? Plantar a informação na Internet, terreno fértil para promover boatos, rumores e calúnias a coberto do anonimato, e, de caminho, denegrir o presidente da Impresa, com quem a Ongoing, empresa em que o ex-espião Jorge Silva Carvalho trabalhou até há pouco tempo, tem um conflito por resolver. Aconteceu com Balsemão, podia ter acontecido com qualquer um.

A conclusão é inevitável. Os serviços secretos estiveram entregues a adeptos do jogo sujo, gente deslumbrada com o poder e que tem uma perspectiva perversa sobre para que serve e como deve ser utilizado. O quadro mostra uma faceta da degradação do regime, em que as mais altas esferas do poder estão sujeitas a serem dominadas e manipuladas por quem jamais deveria lá ter chegado.

Pode ver-se na produção de documentos que mais não fazem do que compilar informação que já é do domínio público, o lado anedótico da espionagem à portuguesa. Uma espécie de confirmação daquilo que as obras de ficção de Graham Greene ou John Le Carré já parodiaram. Mas o "caso das secretas", com as suspeitas de abusos que encerra e as relações ainda mal explicadas com o poder executivo que lhe estão amarradas, oferece muito poucos motivos para rir.



P.S. - Christine Lagarde usou uma comparação infeliz. Mas, ao declarar que os gregos devem pagar os seus impostos para, desta forma, ajudarem o país a superar as dificuldades actuais, passou a mensagem correcta. A Grécia é uma nação onde a corrupção e a evasão fiscal são problemas graves. É tempo de os gregos começarem a fazer alguma coisa para combaterem estes males. Ameaçar com a suspensão do pagamento da dívida é fazer apenas o mais fácil. E o mais irresponsável.



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