Tiago Freire
Tiago Freire 13 de outubro de 2016 às 00:01

Um Orçamento que não quer escolher

O Orçamento ainda oscila, entre o Terreiro do Paço e os gabinetes dos grupos parlamentares. Não sabemos muito das medidas concretas, mas sabemos o essencial: o espírito. E isso é motivo de preocupação.

Preocupação que o documento não conseguirá dissipar, se finalmente se mantiver fiel ao modelo anunciado. 


Economicamente, o Orçamento para este ano falhou. Ora o que nos diz António Costa – enquanto deixa a Mário Centeno a ciclópica tarefa de fazer as contas – é que o sentido do Orçamento do Estado para 2017 será o mesmo do esforço falhado deste ano. E desta perplexidade é muito difícil sair.

É óbvio que qualquer Governo, e muito mais este, é fruto das condições com que é formado. E o apoio parlamentar de Bloco de Esquerda, PCP e Os Verdes tem como pedra de toque uma coisa tão simples como a "reposição de rendimentos".

Vê-se nas discussões com os representantes sindicais da Função Pública, que clamam por aumentos em cima das reposições, como se o país, o resto do país, não existisse. Os sindicatos existem para defender os interesses dos seus representados e não têm qualquer obrigação de pensar no bem comum. Para isso servem os governantes eleitos. O problema é quando estes estão numa posição em que não podem pensar no bem comum, mas só nos bens particulares de alguns, sob pena de não conseguirem governar.

A filosofia da reposição não responde a uma questão simples: depois de repor, iremos para onde? Mais, queremos repor uma situação anterior – aparentemente aquela que existia antes do período da troika e do Governo de direita – como se antes destes o país estivesse bem, como se tudo o que nos sucedeu fosse fruto do período 2011-2014. Regressemos, então, a 2010, ou 2011, naquilo que o Estado gasta, naquilo que precisa de consumir para a sua máquina sobreviver. Juntemos-lhe mais dívida pública com juros a vencer e um crescimento económico que não se vê. Algo insuficiente como objectivo, parece-me.

Para pagar as reposições e as subidas de prestações sociais que precisam, efectivamente, de ser melhoradas, a receita é a do costume, e não é exclusiva de esquerda ou de direita. O fisco mete as mãos nos bolsos do contribuinte, tanto no esquerdo como no direito.

O grande problema é que – feita a escolha primordial da reversão e da reposição – nada sobra. Para o cumprir e cumprir para com Bruxelas, não há margem para nada de estrutural, algo que possa dar frutos a médio e a longo prazo.

Será, novamente, um Orçamento pensado apenas e só para passar e aguentar o Governo mais um ano. Falta estratégia, falta visão, falta rumo. Falta, no fundo, a capacidade ou a vontade de fazer escolhas consequentes que estruturem um modelo de desenvolvimento de que necessitamos.

Que o documento que conheceremos amanhã prove o meu erro. Ganharíamos todos com isso. 
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mais votado surpreso Há 1 semana

Eles só querem "flutuar",os portugueses que afundem

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Orçamento são números não letras e como o autor não conhece os números então só posso assumir que são apenas adivinhações ...

Mr.Tuga Há 1 semana

EXCELENTE ARTIGO!

Infelizmente para estes canalha*s DESPESISTAS CRIMINOSOS e RUINOSOS de esquerdas parece que só FP e reformados!

Não interessa se os restantes tugas estão desempregados ou moribundos, desde que os sindicaleiros da FP e seus representantes andem animados e motivados...

Estes sitio pestilento e mal frequentado, MERECE-SE!

Zé Prazeres Há 1 semana

Tanta narrativa catastrófica...! Até me assustei! Fogo

surpreso Há 1 semana

Eles só querem "flutuar",os portugueses que afundem