Celso  Filipe
Celso Filipe 29 de junho de 2017 às 00:01

Uma Europa como o Canadá

A União Europeia, parte dela, ainda está em estado de negação com o Brexit. Por isso, houve quem visse na pífia vitória de Theresa May, nas legislativas realizadas no início deste mês, uma possibilidade de o Reino Unido fazer marcha atrás neste processo.
É uma ilusão que convém desfazer quanto antes. O processo é irreversível e tem de ser conduzido de forma eficiente, a contento das partes. Da União Europeia, que precisa do Reino Unido, do Reino Unido, que precisa da União Europeia. O caminho é o acordo e não o divórcio litigioso.

Ontem, Günther Oettinger, comissário para o Orçamento e Recursos Humanos da União Europeia, e Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, fizeram duas intervenções públicas que caminham na direcção do pós-Brexit.

O primeiro avisou que a saída do Reino Unido provocará um rombo anual no orçamento comunitário entre 10 e 11 mil milhões de euros e avisou que será preciso fazer cortes nos próximos 10 anos. Juncker, por sua vez, veio admitir a possibilidade de a Comissão Europeia usar o orçamento como prémio ou castigo para os Estados-membros. Prémio, dando mais dinheiro, caso os países avancem com reformas estruturais e medidas que fomentem a competitividade das respectivas economias. Castigo, fechando a torneira se os países se atrasarem na implementação dessa reformas. Com uma outra condicionalidade relevante, a que liga o financiamento comunitário ao respeito dos países pelo Estado de direito. Uma sugestão que surge no rescaldo dos atropelos às liberdades que se têm registado na Polónia e na Hungria.

As duas intervenções têm uma legitimidade inquestionável. Por um lado, contempla-se uma gestão mais criteriosa dos fundos comunitários; por outro, decide-se em função do cumprimento de metas. Mas, porventura, mais importante do que esta dimensão financeira é a colocação da liberdade dos cidadãos como critério de avaliação, porque só pelas pessoas será possível criar um clima de coesão social transfronteiriça.

A União Europeia deveria ser como o Canadá, onde a multiplicidade étnica é o factor determinante para a construção de uma identidade nacional. Onde todos os cidadãos, independentemente do seu país de origem, se identificam orgulhosamente como canadianos. É este o espírito que falta os europeus, que só se sentem como tal sobretudo devido a uma fatalidade geográfica. 

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