Pedro Santos Guerreiro
V de Vasco, V de Vingança, V de Vitória
08 Agosto 2012, 23:30 por Pedro Santos Guerreiro | psg@negocios.pt
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"Situação financeira do Grupo Mello no limite. Garantias dos empréstimos estão a valer menos, família já entrou com património junto dos bancos." Era assim que, há um ano, a 16 de Agosto de 2011, o Negócios revelava pela primeira vez a situação financeira aflitiva do Grupo José de Mello.
Páginas adiante, publicávamos um perfil sobre o "poderoso" Vasco de Mello, desfilando os seus amigos, inimigos e aliados. Hoje, 9 de Agosto de 2012, celebra-se o sucesso de uma OPA que salvou a família e os bancos, com o génio de Vasco, com o apoio dos amigos e o dinheiro dos aliados.

A crise económica retirara "cash flow" à Brisa, que depois de gastar o dinheiro do Brasil (proveniente da venda da concessionária CCR) e após descidas do "rating" poderia ficar sem fluxo para pagar dividendos, o que impediria o grupo Mello de pagar aos bancos. A crise financeira roera o valor das acções e os graus de cobertura das dívidas junto do BCP, BES e CGD. O Negócios revela hoje esses graus de cobertura: constrangedores. O conselho de crédito do BCP devia ser chamado ao Banco de Portugal para explicar como só tinha 20% do seu crédito coberto. É inacreditável.

A OPA foi o plano para resolver a crise. O risco de execução era alto, o preço era baixo, continuou a sê-lo depois de uma revisão, mas a OPA fez-se. Pelo buraco da agulha. In extremis. Por uma unha negra. Enquanto o diabo esfrega um olho. Mas a OPA fez-se.

O grupo Mello parecia estar em negação, mas apenas negava - e agia. Vasco de Mello é o herói da história. Vingou-se dos espanhóis hostis da Abertis, que saem amuados e com um enorme prejuízo. Vingou-se da crise, que teria aniquilado outro. Vingou-se das ameaças de OPA de anos. Vingou-se até do destino, fazendo do inimigo Arcus um amigo de ocasião.

CGD, BES e BCP foram os artilheiros. Salvaram o grupo Mello e a si mesmos. Corre-se o dedo pela lista do "poderoso" Vasco, está lá tudo: o amigo José Maria Ricciardi e os aliados Ricardo Salgado (BES), Carlos Santos Ferreira e Nuno Amado (BCP), Jorge Tomé e José de Matos (CGD), até Toto Lo Bianco (Arcus). Todos juntaram os paus, fizeram a canoa e remaram juntos. Agora, a Brisa sairá de Bolsa, as suas acções serão reavaliadas nos balanços por mais do dobro do preço da OPA, os bancos reforçam as garantias, a Arcus melhora o preço do seu activo (que mais tarde venderá?), os obrigacionistas garantem os seus reembolsos.

Todos os dias há empresas a ruir, nomes cada vez mais conhecidos a falir, sectores inteiros a serem comidos na voragem da crise. O Grupo José de Mello era o maior dos aflitos. Não o é mais. Há caminho difícil pela frente, mas hoje é dia de festa. Pelo sucesso. Sobretudo, pelo alívio. No final da história, quase toda a gente perdeu: os accionistas da Brisa que andaram a comprar acções a dez euros e o próprio Grupo Mello que há-de ter de olhar para activos como a Efacec e EDP. Os vencedores estão feridos. Os feridos são vencedores.

O único perdedor é o mercado de capitais. Os pequenos accionistas são outra vez carne para canhão, vendem a valores baixíssimos, com prejuízo, ainda verão a Brisa voltar à Bolsa mais cara daqui a anos, quando a crise tiver passado, os erros nas PPP sido amortizados e as auto-estradas se encherem de tráfego.

Com a saída da Brisa e da Cimpor, a Bolsa portuguesa continua a perder. O mercado está a ficar um mercadinho e o PSI-20 um psizinho. Os Mello conseguiram o que muitos outros gostariam, mas não têm financiamento para fazer: tirar as suas empresas de Bolsa, assim baratinhas, reestruturar e, como Belmiro fez há mais de 20 anos, voltar a vender no futuro. Se ainda houver Bolsa.

Hoje ainda há. É lá que Vasco de Mello hoje entrará. Se as suas mãos estiveram nos bolsos é, por recato, para esconder os dedos; dedos que já não estarão cruzados em figas, mas abertos em "v"ê. O V de Vasco, o V de vingança, o V de vitória.


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