André  Veríssimo
André Veríssimo 06 de setembro de 2017 às 23:00

Vai o OE rimar com BCE?

O teste à capacidade de Portugal se aguentar nos mercados sem o “doping” do BCE aproxima-se. Vem também daí a ansiedade do Governo em relação à subida do “rating”, aquilo que melhor pode isolar o país de reacções adversas dos investidores. Ora o próximo Orçamento do Estado pode ser uma cartada decisiva para convencer as agências.

Hoje termina mais uma reunião de governadores do BCE e dela pode sair o anúncio de uma redução nas compras mensais de activos, embora a maioria dos analistas esteja mais inclinada para que isso só aconteça em Outubro, devido à forte apreciação do euro contra o dólar.

Seja este mês, seja no próximo, o programa de compra de activos tem a morte anunciada. A Alemanha e os grandes bancos têm pressionado nesse sentido, sequiosos por um aumento das taxas de juro que lhes ajude à margem financeira. E é nos países mais vulneráveis nesse capítulo, como Portugal, que as atenções vão recair.


Devemos preparar-nos para a chegada do Diabo e começar a rezar? Não há razão para pegar já no terço. A torneira do programa de compra de activos não vai fechar de repente, Mario Draghi anunciará uma diminuição progressiva do caudal. Além disso, a autoridade monetária irá reinvestir o dinheiro dos reembolsos da dívida que já tem no balanço, o que basta para assegurar a sua continuidade no mercado, ainda que com um poder de fogo mais reduzido.

Acima de tudo, o BCE irá querer gerir com pinças o processo, porque tudo o que não quer é um regresso à crise. No mercado, as taxas de juro de Portugal também não dão conta de especial ansiedade. A "yield" nas obrigações a 10 anos está nos 2,8%, quando em Março estava nos 4,3%. No final de Julho, o risco esteve no nível mais baixo desde Janeiro de 2016, tendo subido ligeiramente nos últimos dias com a aproximação da reunião do banco central.


Não significa isto que a reversão do programa de compra de activos seja indiferente para Portugal. Pelo contrário. Os custos de financiamento do país andariam pelo dobro não fosse o BCE. Os investidores olham para o horizonte e o que vêem é uma dívida pública cuja sustentabilidade ainda é questionável e um mercado onde a mão de Mario Draghi deixará de ser tão visível. Um agravamento de apenas três pontos percentuais teria um impacto sério nas contas públicas e no custo de financiamento da economia.

É por isso que tirar Portugal do "lixo" antes de o país estar exposto às dúvidas criadas pelo fim do programa do BCE teria uma importância capital, abrindo o leque de investidores. Nesse desiderato, além de números mais robustos do PIB, a execução orçamental deste ano e o Orçamento para 2018 são a melhor cartada que o Governo tem para pôr na mesa. É para onde as agências e os investidores irão olhar de modo a avaliar a sustentabilidade do percurso seguido até aqui e a determinação em manter o rumo.

As decisões que Mário Centeno e António Costa irão tomar sobre a folga que poderá existir este ano e o figurino das contas públicas no próximo têm de assumir aquela prioridade. Pela simples razão de que desta questão depende tudo o resto. Inclusive haver dinheiro para acolher reivindicações de sindicatos.

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Mr.Tuga Há 1 semana

O nosso Pato Ronaldo das finanXas vai mandar tudo para debaixo do tapete e enganar as agencias! Os xuxas são exímios em fazer NADA e dar grande espectáculo.... Uns MALABARISTAS!
Entretanto cá a CAGADEIR*A da Europa cada vez mais POBRETANAS e endividada, mas feliz com o novo OASIS esquerdalho!

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