André  Veríssimo
André Veríssimo 26 de janeiro de 2017 às 00:01

Veículo de choque

Quando se pergunta a um presidente de uma instituição financeira portuguesa se o veículo para limpar o crédito malparado é necessário, a resposta sai lesta: o banco não precisa.
O último foi Vieira Monteiro, do Santander Totta, na apresentação de resultados que decorreu na quinta-feira. Percebe-se: assumir que se precisa de um veículo deste género é reconhecer uma fragilidade, é abrir o flanco à desconfiança. É por isso que, em público, os banqueiros fogem do assunto como da peste.

Na verdade, os bancos não enjeitariam uma solução global, que atacasse o problema do sistema como um todo, como aliás acaba por reconhecer Vieira Monteiro: "Se houver algo que nos possa interessar, não deixaremos de analisar." A banca desdenha, tacticamente, mas estaria disponível para comprar.

O veículo é o tratamento de choque. Que deveria ter vindo ainda no tempo da troika. Em vez disso tivemos uma digestão lenta, feita nos resultados a cada ano, com custos para o crescimento.

A virtude do tratamento de choque, quando funciona, é que permite uma recuperação muito mais rápida do paciente. No caso em presença, ele proporcionaria uma estabilização muito mais rápida do sistema financeiro, libertaria os bancos dos "zombies" que ainda mantêm vivos no balanço, abrindo espaço para dar mais crédito, o que por sua vez animaria a economia.

A cura existe. Mas aplicá-la é tudo menos simples. A solução teria de ser aceite pelo BCE e não ser considerada ajuda de Estado pela Concorrência Europeia. Outra dificuldade reside em definir um modelo que sirva de igual a todos os bancos, sabendo-se que o problema não é igual em todos. O Governo quer ainda que a solução proteja os devedores.

Mas o cerne é outro. É a escolha política de quem fica com a factura. O Banco de Portugal diz que tem recebido propostas. Uma delas, liderada pelo antigo "partner" do Goldman Sachs, António Esteves, até se propõe a pagar aos bancos o valor pelo qual os activos estão registados agora no balanço.

Nestas coisas não há almoços grátis. Se o negócio fosse assim tão bom, os bancos ficavam com ele para poderem registar ganhos, depois de anos de imparidades.

O racional destes negócios é comprar a carteira de crédito com um desconto que dê perspectivas de rentabilidade e cubra o risco de parte de esses empréstimos serem mesmo incobráveis. Se não há desconto, há garantia. António Esteves explicou ao Público que a operação "contempla um investimento em títulos emitidos com garantia pública". Ou seja, no fim da linha estão os contribuintes.

O caminho para aplicar a terapia é estreito, sinuoso e obriga a decisões difíceis. Mas haveria vantagens em conseguir percorrê-lo. 

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comentários mais recentes
Atordoado Há 3 semanas

Digo já da minha parte....contribuintes a pagar não.

nin Há 3 semanas

A quantidade de vezes que os bancos já tiveram de limpar os balanços, à custa de contribuintes ou accionistas, é o assustador resíduo tóxico do que a esquerda chama os "anos de abastança" da nossa democracia. O resíduo radioativo é a esmagadora dívida pública e privada.

surpreso Há 3 semanas

Nesta altura já vem tarde.Quem não aguentou,morreu ,ou vai morrer.BPI e Banif são espanhóis,BCP é chinês e o Novo Banco será de oportunistas estrangeiros.O capital português está desmantelado e ou foi para o estrangeiro,ou está em terrenos e tijolo

Mr.Tuga Há 3 semanas

Pois!
Quando a esmola é grande....