Raul Vaz
Raul Vaz 31 de março de 2017 às 00:01

A César o que é de César

Desde que Mário Soares o desviou do Pio XII e do circuito cosmopolita, sempre quis voltar das ilhas de bruma. Durou três maiorias, um ciclo de mudança, salto de afirmação contra o outro. Quase sempre do contra. Voltou para navegar o conflito entre perdas e ganhos.

Se a política vive, também vive, de manha, Carlos César é um bom exemplo. Por ele passa e nele reside uma parte fundamental do aparente sucesso da geringonça. Nele deposita António Costa uma confiança ilimitada e uma esperança sem fim. César está para o príncipe como Maquiavel esteve para Lourenço de Médici, no início do século XVI.


São regulares as inserções do líder da coligação governamental (César é chefe no Parlamento) na esfera executiva. Sempre articulado com o primeiro-ministro, quase sempre assertivo na forma e no conteúdo. Raramente tem falhado o objectivo, que normalmente está no amaciar das palpitações da esquerda radical. No percurso - e enquanto mete a exuberância no bolso - aproveita para malhar na direita. Com um sucesso indesmentível.

Vem agora César, quando Catarina e Jerónimo vociferam contra o negócio do Novo Banco (um contrato de carácter privado entre o Fundo de Resolução, leia-se Estado, e um fundo de risco) e a indefinição tutelar sobre o Montepio, exigir ao Governo, em requerimento timbrado, uma resposta sobre a Caixa. Pede César explicações sobre "os critérios para a reorganização territorial da rede de balcões da CGD". Como se ele não soubesse! Sabe como ninguém e por isso o requerimento conclui num sublinhado que enquadra a manha: "(…) Cabe-nos sublinhar com agrado as soluções encontradas até ao presente momento."

E assim, num hábito que alimenta aparentes divisões na geringonça, César pergunta e responde. Num outro tempo, o líder parlamentar fará as mesmas perguntas (em timbre reciclado) quando o plano de negócios do Novo Banco (entretanto entregue à Lone Star) exigir o fecho de balcões e o despedimento de funcionários. E, provavelmente, o recurso a dinheiro público. Voltaremos a ver e a ouvir as exuberâncias de Catarina e Jerónimo e a dúvida metódica de César.

Estes tempos estranhos trazem-nos uma solução "de mercado" para a Caixa, a saída do Novo Banco da influência pública (mas com exposição pública) e um possível caminho novo para o Montepio, com influência de Santana Lopes. César voltará a perguntar, amaciando a esquerda radical com a sua voz, ao mesmo tempo solidária e suavemente indignada.

O príncipe pode estar descansado.
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comentários mais recentes
Tomás 31.03.2017

Eu concordaria, se antes deste governo não tivesse sido ainda pior. Nem se discutiu o fim do BES numa reunião de conselho de ministros.

Anónimo 31.03.2017

Subscrevo na integra a opinião do autor.César está para Costa como Maquiavel para o Principe. Com aquele seu ar bonacheirão vai dando a volta a PCP e BE que tardam em aperceber-se de que estão a ser conduzidos para o apagamento . Costa tem raizes de Extrema esquerda e portanto tanto se lhe dá .

Anónimo 31.03.2017

Pois é ... político é isto, equilíbrio entre ideologia e razão de estado, mais Maquiavel, menos Maquiavel, é importante bom senso que levem a decisões abrangentes e consensuais, mesmo que seja preciso sacrificar um pouco da democracia a favor da república

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