Raul Vaz
Raul Vaz 20 de junho de 2017 às 00:01

Para lá do Além

É na tragédia que devemos ser crus, até cruéis. Perguntar porquê? Encontrar razões e responsabilidades a quente, sem permitir que a morte esfrie a vida. O que aconteceu mostra bem, talvez como nunca, o país que somos.
E, na estrada que se abriu, somos o combate paroquial entre Lisboa e o Porto, afinal como habitualmente somos. Agora mais, numa sociedade em rede, mas sem rede. Ninguém imaginaria que nas ruas da morte não há comunicações capazes de enviar uma mensagem, fazer um negócio, salvar uma vida. A culpa, aqui, está casada, de papel escrito, com a ganância compulsiva de um modelo assente em preconceitos pecuniários, sentido de uma raça que procura reconhecimento em cada clique que alavanca o sucesso. Também aí, não há regras nem parcimónia. Sobra empáfia.

Não é notícia da tragédia a natureza da coisa. A raça humana raramente presta e é nesse caminho que se pretende afirmar como triunfante. Talvez seja este o caminho mais eficiente. Mas não é, certamente, o único.

Antes da tragédia, o caminho voltava a ligar duas cidades, uma A1 das influências sem lugar para saídas pelo meio. Um governo que, de vez em quando, parece esquizofrénico aceitava uma outra reversão para agradar a todos os que contam. O mesmo primeiro-ministro que tinha dado como publicamente fechado o processo de candidatura à Agência Europeia de Medicamentos – e só Lisboa poderia ser vencedora – virava a palavra do avesso e, com manha, recuperava o Porto. Eis o governo ao espelho: nunca se diz nunca quando as influências circulam o território do interesse político-eleitoral. É aqui que habita Rui Moreira, Manuel Pizarro, um partido a caminho da maioria absoluta. Claro que é também neste episódio triste que habita o faz-de-conta. Portugal não é só Lisboa, facto. Mas também não é só Lisboa e Porto.

Há realidade, sim. É verdade que o défice está abaixo da linha de água, que o turismo bomba e as exportações crescem, que há mais emprego, há negócio a mexer. É verdade que o ministro das Finanças vai à Lua quando é tratado por "Ronaldo", que o primeiro-ministro trata com a mesma arrogância uma divergência política e uma nomeação administrativa. Sejamos cruéis: António Costa é, de facto, um optimista irritante.

E como qualquer optimista que se supera em confiança e mérito, lida mal com o imprevisto. O primeiro-ministro chegou à tragédia com certezas, mas sem respostas: foi um raio, uma trovoada seca, maldade do além. Por instantes, pareceu como qualquer um perante a fenda sem solução, aquela em que um optimista militante sente e sofre, como todos, a vertigem de uma impotência impiedosa.

Foi essa condição que, num aparente paradoxo, mostrou do que é feito o Presidente da República. Que quis ser dos primeiros a partilhar a dor (não, não é o "dói-dói" do tonto deputado do CDS), o primeiro a ajustar o efeito público da tragédia. Com uma decisiva nuance: era (é) muito cedo para culpar simplesmente o além. Deixando a pergunta atingível: onde e como falhamos nós? Não nos esqueçamos da questão.

Mais do que do governo, a tragédia de Pedrógão Grande fala-nos de quem somos. Mostra a quem quiser ver um país de fosso: entre a vertigem competitiva da saturação urbana e aqueles que apenas querem viver, por acaso, num sítio que é o mesmo país, só não parece. Alguns destes morreram em Pedrógão. E isto não pode ser resumido à frase pueril e impotente do "é a vida". Sejamos, pois, cruéis, sendo verdadeiros. 

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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Tretas, tretas e mais tretas. Toda a gente sabe qual é o problema. Viver no meio dos pinhais e eucaliptais que alimentam as celuloses é viver em risco de vida permanente. Há décadas que tudo aquilo é para crescer e arder ..

Mr.Tuga Há 4 semanas

Sitio ATRASADO de MIERDA sem cura! Sem "CULTURA" civismo e cidadania!
Povo SEBENTO que chora tragédia, mas no próximo fim-de-semana faz churrasco no parque natural, deixa brasas acesas e lixo e no regresso manda as beatas pelo vidro da voiture pra floresta!
Vemo-nos 2018 noutro ENORME INCENDIO!

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