Rui  Peres Jorge
Rui Peres Jorge 03 de outubro de 2017 às 12:25

Um guia económico para uma direita perdida

Sem a troika e sem a crise, Pedro Passos Coelho não conseguiu formular uma ideia clara para o desenvolvimento do país. Seja qual for a liderança que emergir dos escombros eleitorais, poderá contar com uma preciosa e inesperada ajuda de um plano de reforma de direita que será apresentado no final de 2018.
Dois anos após ter ganho as eleições legislativas que o atiraram para a oposição, o PSD registou uma das maiores derrotas da sua história. É certo que o resultado das autárquicas reflecte em parte o sucesso da geringonça, em particular para o PS. E que as dificuldades de Pedro Passos Coelho em controlar o partido aumentaram tremendamente com a incerteza sobre se consegue recuperar poder para o distribuir pelos seus. Mas a queda e desorientação do PSD tem uma outra razão mais profunda: uma descapitalização intelectual e programática que se agrava há anos.

Sem a troika e sem a crise, Pedro Passos Coelho não conseguiu formular uma ideia clara e coerente para o crescimento e desenvolvimento do país. Nestes anos, puxou partido para uma franja mais à direita no espectro político, desafiando a tradição do partido, mas fê-lo sem acompanhar a ousadia com substância programática e intelectual. O erro começa agora a passar a sua factura.

Enquanto esteve no poder, as fragilidades foram sendo disfarçadas pelo acesso à informação produzida pelo aparelho do Estado e por seguir um guião liberal alicerçado nas ideias do FMI, BCE e Comissão Europeia. Mas desde a saída de Vítor Gaspar, e, depois, da troika com o consequente desmantelamento da Exame de Carlos Moedas, que Pedro Passos Coelho, que nunca chegou a ter uma equipa de aconselhamento económico digna desse nome, rapidamente ficou sem roteiro.

Seja qual for a liderança que emergir dos escombros eleitorais, ela precisará de conquistar credibilidade e criar um discurso à direita e centro direita centrado no crescimento, na dívida, na reforma do Estado e nas muitas desigualdades do país, que vão do rendimento à concorrência. Para isso poderá contar com uma preciosa e inesperada ajuda para um futuro programa económico.

Trata-se de um trabalho patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que está há dois anos a preparar um guião para uma reforma orçamental abrangente, sob a batuta de Abel Mateus, agora administrador do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento para onde foi indicado em 2011 por Vítor Gaspar.

Liberal e directo, Abel Mateus, que também foi presidente da Autoridade da Concorrência, já anunciou ao que vem, numa apresentação das conclusões intermédias que fez na semana passada: Portugal precisa de um Estado mais pequeno, com menos despesa e despesa mais eficiente, e uma revolução nos impostos que estão a desincentivar o trabalho e a travar a poupança e o investimento.

Dito assim parece neoliberalismo de cartilha, mas Abel Mateus já garantiu que defenderá as ideias com o recurso a três anos de trabalho e à melhor teoria económica disponível o que, a cumprir-se, não será pouco. Os resultados estão prometidos para final 2018 e, se conseguir afirmar-se como o programa económico para a direita perdida, a geringonça que se cuide.
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